quarta-feira, 15 de maio de 2024

ARRIBAÇÃO energias: eólicas, hidroelétricas e poéticas

 

Dia 13, segunda feira, faz sol e calor. 

De Garanhuns à Paulo Afonso, três horas de carro, no meu ritmo.

A paisagem é marcada pela lógica do mercado e sua urgência por  maquinarias. 






Mover motores exige moldar a paisagem. 

Rio vira lago, serra vira plantação de hélices gigantes. 

É bonito, necessário, mas... 










Paulo Afonso, a cidade, tem parques agradáveis, tento desfrutar, mas o rescaldo do dia anterior se apresenta.

Corpo cansado, pelo desacostume das horas no carro e pelo excesso no morro da vulva carmim e dos cristais roseos.  

A cabeça em dúvida: vou até Canudos ou sigo direto para o Sul? 

Sul, que no caso ainda é norte da Bahia.

Tento aferir penas e danos, ganhos e desfrutes.

Navegando na rede (bendita máquina e a energia que a torna possível),  busco informações sobre o Parque Estadual de Canudos.  

Sou tomada pela poesia de  imagens em totens de vidro. Rostos com semblante imponente e olhos que vaticinam:  "Vocês não nos esquecerão!".

Se tais olhos lá existiram e resistiram, se houve quem os registrasse e preservasse, se há quem os exponha no local onde foram assassinados, haverá também quem lhes ofereça o olhar. 

Dia 14, acordei energizada pelo desejo de ser um desses.

Fui, por homenagem ou por um incontrolável vício.



domingo, 12 de maio de 2024

ARRIBAÇÃO, dia 1 - arriba, por amor à arte

12 de maio, dia das mães. Decidi arribar, já passava da hora.

Saí de Recife às 8,50 h, o aplicativo de rotas para a Usina de Arte Santa Terezinha

0 aplicativo começou a tocae Apaga o fogo, mané - do Adoniran Barbosa.

Decidi ouvir, sempre achei que o nome dessa música deveria ser Agora a Inês é viva!

Acho divertida a letra sobre o pé na bunda que ela deu, narrada pelo alvo.

Inês me fez pensar em Santa Terezinha:

quem foi essa?

Li depois que foi uma adolescente que pegou leve nas

obrigações e argumentou

que não é preciso se arrebentar 

para encontrar o sentido do sagrado.

Garota esperta.

Chego a usina às 11,05 h, sol a pino. 

Quase meto o carro no meio do jardim,

culpo a sinalização pouco empática e

a ausência de funcionários para orientar. 

Já fica aqui o resumo: sem recepção, sem

monitoria e sem pessoal de apoio.

Banheiro, só lá no final de tudo, 

fiquei sabendo no final do percuso.

Iniciei a  visita com a bexiga estourando,

banhada em protetor solar, 

com uma garrafa de água e de chapéu.  

Trilheira precavida, minha sorte.

Sorte nada, é autocuidado mesmo.

Começo a subir e realmente não há pontos

de apoio com água e banheiros.

O calor aperta, a bexiga cheia, chia.

E a água da garrafa acaba

Mas, nada impede uma devota das santas das artes visuais 

de atingir seu sacro fetiche estético poético feminista.

Início a caminhada mirando na vulva,

que domina a paisagem do parque, 

e no muro de pedras rosas  que dominava meu imaginário 

povoado pelas redes sociais

com relatos da mais recente aquisição do parque.

Subo vielas de lajotas, sem sinalização; 

sigo o rumo da fenda carmim 

com toda a fé que chegaria à tão esperada parede cravejada de cristais.

Percorro as centenas de metros morro arriba, 

como um devota que não ignora as agruras da auto imposta 

penitência.  

Chego ao cume, 

suando como uma sulista no nordeste 

e torcendo para que o Generador 

de fato tenham em mim algum efeito  catártico 

que recomponha os sais minerais evaporados de 

minhas reservas.

Nele depoisito minhas gotas de suor.

Arte que se oferece ao toque é puro orgasmo, 

pensando nisso, me envolvi no jogo proposto e me

rendi ao rito:  esfreguei minha virilha, meus peitos e minha testa 

na coluna de cristais que me oferecia amanho compatível. 

Senti-me pequena, jurava ser mais alta.

Feita a experiência, olho para o que a contra face da parede convoca: 

assim como ela pode ser vista de longe, dali pode se ver todo parque. 

Se impõe como vista e ponto de vista.

Na caminha de volta não pude deixar de pensar:

terá a artista, os curadores e os proprietários

vindo até aqui seguindo o mesmo rito

corporal  imposto a quem deseja usufruir de sua criação?

Pensei na terezinha que não suava 

e na Inês que entornou o balde...

Ao sair, me detive na cabeça flutuante 

e uma vez mais na onipresente visão da vulva flamejante. 

Mas, me apaixonei mesmo pela Rádio Catimbó,

dela senti um profundo desejo de me oferecer abrigo do sol.

Muitas famílias foram ao parque naquele dia quente,

celebrar o o dia das mães.

Algumas mães, ficaram sentadas sob as árvores, 

evitado subidas naquele calor. Sábias senhoras.

Apesar da ausência de apoio e monitoria, 

eu gostei e pretendo voltar, com mais tempo,

agora que aprendi onde tem banheiro e 

certamente levarei mais água. 

No caminho de saída, um vendedor de sorvetes 

me disse onde havia um banheiro, único e  não sinalizado

Também me orientou como ir ao restaurante mais próximo, 

um agradável bar em uma residência familiar. 

Almocei entre famílias em festa pelo dia das mães e subi a serra. 

Em Garanhuns cheguei as 15,30h, 

circulei próximo ao Centro Cultural, tomei uma cerveja que ninguém é de ferro.










































quinta-feira, 9 de maio de 2024

ARRIBAÇÃO - prelúdio ... passarinha, simples assim!


 
















De 10 de março a 28 de abril, presenciei da janela da sala, em Barão Geraldo, os cuidados de uma passarinha com seus filhotes. Fez ela ninho em uma vaso de plantas suspenso no meu jardim, alí gerou dois ovos. Após uma semana nasceram duas crias, então durante 30 dias ela os aqueceu e alimentou. Quando as penas estavam prontas ela os instigou a deixar o ninho, ficando por perto por alguns dias, depois  saiu de cena, seguindo o curso da natureza. 

Simples assim. 



terça-feira, 23 de abril de 2024

Corpo, memória, território: as cartografias afetivas de Andrea Mendes irão circular por Quilombos e Espaços Culturais no Estado de São Paulo.

Exposição Sobre Sub Solo, em Ubatuba.
texto de divulgação

 A temática da luta por território, das memórias familiares e da criação de cartografias fundamentadas nos afetos e histórias fazem parte da instalação da artista contemporânea, que agora lança a circulação da exposição "Sobre Sub Solo". 

O projeto, que agora irá dialogar com territórios diversos, irá criar novas instalações nos territórios que a artista chamou de “SEMEADOUROS”. A arte, as performances e a instalação criada por ela promovem a reflexão sobre evocações de memórias que revisitam seus deslocamentos e enraizamentos. Cada instalação será criada junto com as comunidades e trará elementos já colocados dentro de seus processos criativos, mapeados e co-criados junto com os locais por onde ela irá percorrer.

Neste trabalho, Andrea Mendes apresenta uma cartografia de resistências ao apagamento de uma gama de sensibilidades, que transitam de seu Nascedouro (Itaberaba - BA) para o seu Acolhedouro (Campinas - SP); que se recriam em seu Renascedouro (Araras, SP) e que se redescobrem conectadas com múltiplas culturas, na vivência em um Hospedadouro como artista convidada nas ocupações na comunidade de Bermudez, interior da Argentina. Em 2024, o projeto de circulação da exposição se propõe a visitar e construir novas histórias com comunidades quilombolas no estado de São Paulo. "A ideia de percorrer territórios quilombolas tem a ver totalmente com a minha relação com os territórios. Durante a pesquisa, eu me deparei com o entendimento de que os quatro territórios que eu percorri na primeira etapa do projeto estão pautados em lugares de luta, de ocupação e são territórios produtivos", salienta a artista e pesquisadora. O local onde Andrea Mendes nasceu, no município de Itaberaba, na Bahia, também era território quilombola, denominado de "Quilombo do Orobó". E, segundo ela, os lugares que permitiram a criação desta instalação são locais de resistência, pautados na luta. "Por conta disso, o meu desejo agora é fazer esse vínculo com os semeadouros é para poder criar uma conexão com os lugares que foram as primeiras ocupações no Brasil, que são os remanescentes de quilombos. As pessoas foram para esses locais e fortaleceram essa noção de construção coletiva, por um objetivo comum e todos os outros passam por esse mesmo percurso. Então, tudo está vinculado à minha história de vida, que eu cartografo na pesquisa, tem a ver com isso", completa Mendes.


CARTOGRAFIAS AFETIVAS QUE NARRAM MEMÓRIAS E RESISTÊNCIAS


O trabalho da instalação é pensado por meio das cartografias que Andrea já realizou e também através de vivências e atividades que serão organizadas junto com as três comunidades quilombolas listadas acima. "Sobre a cartografia, me interessa muito saber sobre a memória dessas pessoas, dessas comunidades, sobre a perspectiva das mulheres, porque eu, no meu entendimento, o matriarcado é pautado numa construção não só de organização social, mas muito no campo do afeto, do acolhimento", compartilha Mendes. Pensar e construir junto uma cartografia que conte as histórias de mulheres, suas narrativas de resistência, às memórias das mais velhas e mais velhos, seus modos de vida, de pensar e de construir a luta dentro dos seus territórios é também um dos objetivos dessa circulação. "Me interessa pensar de onde essas mulheres vieram, quais são as inspirações delas, estabelecendo uma relação com o passado, com o presente e também com o futuro e é isso que me motiva a traçar essa cartografia", conta Andrea Mendes. De acordo com a curadora Sônia Fardin, curadora da exposição "o traço comum das imagens que registram as vivências e as atuações criativas de Andrea Mendes são a face altiva da classe trabalhadora brasileira e latino-americana, juntamente com suas diversas formas de enfrentar as violências coloniais ainda presentes nas comunidades centenárias de luta, sejam elas rurais e urbanas. Nas construções artísticas são utilizadas pinturas, instalações, desenhos e vídeos que documentam suas performances. Realizadas entre outubro de 2019 e dezembro de 2021, a artista fez uso de fios e traços, tintas e linhas, rasgos e costuras, gestos e olhares, para, dialeticamente, frisar e esgarçar as barreiras e limites impostos pelas forças do capital, que de leste a oeste e de norte a sul, sob formas diversas, há séculos vêm rasgando a carne e sufocando as vozes dos que se levantam contra as opressões às formas comunitárias de organização da vida."

PIPAS NO CÉU DAS COMUNIDADES

Para simbolizar esse percurso cartográfico, a artista escolheu a pipa como símbolo de seus deslocamentos por territórios e fez dela o suporte das imagens que registram suas vivências e atuações. “Para as crianças que vivem em comunidade e sobrevivem rompendo as adversidades cotidianas, a criatividade nas brincadeiras é, com certeza, a maior beleza. Com toda limitação de espaço, falta de praças, parques e campos, a rua se torna o espaço de socialização e lazer, seja ela de terra batida ou de asfalto, tornando-se quadra de futebol, pista de carrinho de rolimãs, pipódromo", pontua Mendes. De acordo com ela, esse elemento é importante por se tratar de algo comum aos diversos lugares por onde ela passa e, em grande parte das comunidades, o costume de "soltar pipa" vai além das infâncias, pois ela é acolhida por crianças e adultos.


“SOBRE SUB SOLO” EM UBATUBA:

O primeiro pouso de Andrea será no Quilombo da Fazenda em Ubatuba, e a exposição será realizada no Teatro Municipal, com data de estreia no mês de abril de 2024 e ficará aberta à visitação de 18 de abril a 10 de maio. Este projeto é realizado por meio do Prêmio do Edital ProAC 13/2023 Artes Visuais - Circulação de Exposição, do Governo do Estado de São Paulo.

SOBRE ANDREA MENDES:

Andrea Aparecida de Jesus Mendes, nome artístico Andrea Mendes, é uma artista preta, retirante nordestina do sertão baiano, nascida em Itaberaba (BA) em 1979. Tem Campinas como sua segunda morada e o mundo como solo hospedeiro. Graduada em Artes Visuais pela PUC Campinas (SP), é mestranda no CEFET – Rio de Janeiro (RJ). Transita entre a arte e o ativismo, entre o permanecer e o deslocar, entre dor e cura, trazendo para o seu trabalho um olhar crítico sobre temas que a atravessam cotidianamente, expondo as fissuras do sistema social brasileiro que ainda se mantém escorado nas muletas coloniais. Seu artivismo envolve relações de experiência corporal com o espaço que ocupa, gerando tensões poéticas. Suas investigações transitam entre o individual, coletivo e subjetivo. Entre as linguagens de interesse da artista destacam-se a performance, a instalação e pinturas em grandes formatos.

 

CONTATOS:

Produção local e comunicação: Vanessa Cancian - 12-98117-3657

 

SERVIÇO:

O quê: Exposição “Sobre Sub Solo”

Artista: Andrea Mendes

Curadora: Sônia Fardin

Quando: 18 de abril a 10 de maio

Visitação: Segunda a sexta-feira - das 9h às 12h / das 13h às 17h

Onde: Teatro Municipal de Ubatuba

Endereço: Av. Benjamin Constant, 1633 - Centro, Campinas - SP, 13010-142, Brasil

Instagram: @sobresubsolo

Agendamento com visita guiada: pelo e-mail sobresubsolo@gmail.com ou pelo telefone/whatsApp 19 99118-0337 (Paula)


sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

Memorial das Ligas e Lutas camponesas, um museu feito de sangue

 Memorial das Ligas e Lutas camponesas, um museu feito de sangue

Dizer que há sangue camponês neste museu não é uma referência somente a sua história de lutas e resistências. Tampouco se resume à reverência ao sangue derramado das lutadoras e lutadores que há décadas enfrentam a mão armada do latifúndio.
Tão fortes como nas Ligas do passado, é possível hoje ver as veias vivas que ligam o museu e a comunidade que lhe dá sentido; um corpo único que encarna a resistência no presente.
Neste museu vivo, feito de exposição-campo-de-futebol-lavoura-capela-cemitério-ruas, a memória não é apartada da vida; é o sangue que irriga a luta pela terra partilhada, da qual não renunciam.
Reverencio todos que vieram antes e os que seguem construindo ligas, em especial pelo que deles aprendi com Weverton Elias Santos Rodrigues, Josilene da Silva Oliveira, Alane Maria Silva de Lima, Dandara, Cauã e Átila Tolentino.
@memorial.ligascamponesas @atilatolentino