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sexta-feira, 10 de setembro de 2021

TONINHO DO PT, ABRINDO AS PORTAS DO PALÁCIO

 

 
 
 


 
 
Não era para eu ir ao Palácio dos Azulejos naquela manhã de março de 2001. Estava de férias, mas precisei ir buscar a filmadora que havia esquecido em minha sala de trabalho.
Cheguei muito cedo, peguei a câmera e quando estava saindo do prédio encontrei o prefeito Toninho do PT, acompanhado de alguns assessores, que ao me ver disse: "Bom dia, vamos abrir o Palácio! Entra comigo".

Eu não fazia ideia do que ia acontecer, mas, aceitei o convite, liguei a filmadora e o segui.
Toninho entrou e foi abrindo as portas e janelas da sala que foi ocupada como gabinete oficial dos prefeitos de Campinas entre 1908 e 1968.

Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, era arquiteto e militante político, mas, principalmente, um conhecedor da história e das questões políticas, sociais e econômicas de Campinas. Por isso, naquela manhã de março de 2001, pouco mais de dois meses após tomar posse como prefeito, organizou um ato singelo para marcar a forma como sua gestão se diferenciaria das anteriores.

Não por acaso o lugar deste ato foi o Palácio dos Azulejos. Com fachada imponente, o palacete foi construído pela elite cafeeira em 1878, um símbolo de luxo e ostentação do baronato; em 1908 foi vendido para a municipalidade e passou a ser local do gabinete dos prefeitos republicanos. Com o crescimento urbano, o Palácio passou a ser de fácil acesso à população.

No final da década de 1960, com a ditadura e o recrudescimento das lutas sociais, os dirigentes públicos decidiram transferir a sede da prefeitura para um lugar afastado da rua, longe dos olhos e das vozes da população. Foi construído então outro palácio, o dos Jequitibás, localizado em terreno recuado do passeio público, com o gabinete do prefeito instalado muitos metros longe da rua.

No entanto, este outro gabinete não escapou das lutas de resistência; nas décadas de 1970 e 1980, os integrantes da Assembleia do Povo - movimento por moradia e participação popular na gestão pública - periodicamente ocupavam as escadarias e a entrada do novo Palácio. O jovem arquiteto e militante Toninho estava entre eles,  vivenciou a força das ações simbólicas, como estratégia para fazer luta política pelo direito de todos à vida digna e à participação nas decisões públicas.

Em razão disso, em 2001, quando foi eleito prefeito escolheu reverter o significado dos dois Palácios: o dos Azulejos, edificação que exemplifica o poder da elite, e o dos Jequitibás, que materializa o distanciamento dos gestores públicos da defesa dos direitos da população.

Neste propósito, um dos seus primeiros atos públicos foi a instalação de um gabinete mais próximo do povo; além do já existente no terceiro andar do Palácio dos Jequitibás, na Av. Anchieta, instalou um outro, no Palácio dos Azulejos, na mesma sala ocupada pelos prefeitos em décadas passadas, cujas janelas ficam rente à calçada da Rua Ferreira Penteado, no centro da cidade.

Ao instalar esta outra sala de trabalho e abrir suas janelas coladas na rua, Toninho não almejava somente uma simbólica mudança de endereço, mas sim transformar as reais formas de ocupar o lugar de poder e a função pública de prefeito, para realizar mudanças concretas nas práticas políticas na cidade.

Seu ato sintetizou a decisão de ampliar e garantir o poder popular na gestão da cidade e dos recursos públicos.

Toninho foi assassinado em 10 de setembro de 2001, mas o significado do ato feito por ele naquela manhã de março de 2001 continuou vivo.
Após 20 anos de seu assassinato, seu gesto permanece vivo em todos os que seguem clamando por justiça e lutando por poder popular e uma sociedade igualitária.

A LUTA CONTINUA. TONINHO, PRESENTE, HOJE E SEMPRE!

Sônia Aparecida Fardin 


obs: Esse meu texto é antigo, mas nossa luta também! Virou uma cerimonia anual em homenagem a todos os que seguem a luta por justiça.

- 01 de janeiro de 2001, tomam posse Antônio da Costa Santos (Toninho do PT) e Izalene Tiene - prefeito e vice de Campinas.
- 04 de março de 2001, Toninho abre as portas do Palácio dos Azulejos como espaço público.
- 15 de março de 2001, Toninho anuncia a abertura da antiga estação como espaço público municipal.
- 10 de setembro de 2001, é assassinado Antônio da Costa Santos.
- 11 de agosto de 2002,a prefeita Izalene Tiene, o secretário de cultura Valter Pomar e os trabalhadores da Secretaŕia de Cultura inauguram a Estação Cultura, espaço público de cultura, educação, lazer e memória.
- 10 de setembro de 2004, Izalene Tiene, o secretário de cultura Valter Pomar e os trabalhadores da área de Memória e Patrimônio da Secretaria de Cultura inauguram o Palácio dos Azulejos - sede do Museu da Imagem e do Som, espaço público de memória e lutas sociais.

TONINHO ABRINDO AS PORTAS DO PALÁCIO

sábado, 17 de julho de 2021

Duas faces de uma mesma disputa: Tour da Baronesa e o cercamento das ruas do Bairro Terras do Barão

 

 Sobre esses dois acontecimentos que marcaram a semana do aniversário de Campinas, gostaria de compartilhar algumas considerações.

 
 
O Tour da baronesa causou inquietações e críticas em alguns espaços das redes virtuais.
O Tour convida a população a pagar ingressos para assistir a apresentação de um roteiro histórico sob a condução de uma guia que interpreta uma personalidade histórica da aristocracia cafeeira, uma baronesa.
Portanto, tudo na divulgação leva a entender que a história da cidade será apresentada por um corpo, uma voz e modo de ser de uma classe social vinculada à aristocracia cafeeira.
Uma classe que teve seus privilégios extraídos da exploração do trabalho de milhares de negros escravizados e imigrantes europeus pobres.
À tal figura, que simboliza o poder econômico e cultural de uma classe, é dado o lugar de narradora da história da cidade na semana de celebração de seu aniversário.
Nada novo nesse roteiro, os detentores do poder econômico em Campinas há muitos séculos têm feito com grande eficiência suas celebrações. No traçado urbano, barões e baronesas, têm demarcado os espaços públicos da cidade com os nomes dos seus, garantindo a hegemonia cultural nas placas de ruas centrais, nos rostos expostos nos museus e nas maioria das publicações que celebram a história das cidades paulistas
O tour, portanto, é mais um evento cultural que tem caráter ideológico colonizado e colonizador, ao produzir e reproduzir um explícito discurso político que celebra uma classe social opressora e, mais uma vez, naturaliza mecanismos de poder que definem quem tem lugar e livre circulação nos espaços públicos e privados.
É mais uma manifestação das estruturas de poder que legitimam e perpetuam uma forma de organizar a vida cotidiana na cidade sob a lógica da segregação. Segregação dos corpos negros, pobres e periféricos, ou seja, todes que não se enquadram no padrão estético, politico, étnico, patriarcal e econômico, instituído pelas formas capitalistas de produção e periodicamente reafirmado pela celebração da propalada “modernidade do baronato campineiro”.
Vale ressaltar que não é a trabalhadora, que realiza a tarefa de guiar o tour, a responsável pelo viés ideológico do evento. Esse tipo de ação de turismo cultural tem origem nas relações mercantis que organizam a base material da atividade cultural, não só em Campinas.
É nesse ponto que devemos colocar nossas observações: as formas de organizar as relações sociais de produção, de financiamento, de participação e de controle social dos mecanismos de criação e circulação de arte/conhecimento/valores=vida.
Que relações existem entre este tour e o cercamento do Bairro Terras do Barão?
Muitas são as necessárias observações sobre as conexões entre esses dois eventos. Destaco algumas. 
 

 
 
 
Em primeiro lugar, nada mais naturalizado como lógico e mesmo necessário, na cidade cuja história é celebrada e apresentada por uma baronesa branca, que no Bairro Terras do Barão seja instalada uma cerca e uma organização espacial segregadora dos corpos desviantes de um determinado padrão instituído como produtivo e confiável.
Segundo, é que trata-se de um bairro em que o padrão econômico é alto, onde vivem famílias em condições economicamente totalmente acima da média regional, mas está longe de ser local de moradia dos grandes senhores do capital. Portanto, se ilude quem lá mora e julga estar na mesma posição social que o barão que deu nome ao bairro ou a baronesa que inspira o tour. Importantíssimo destacar que não há consenso na comunidade local, entre os moradores e usuários do bairro, pela opção do cercamento e os consequentes constrangimentos e segregações a uma parcela da comunidade e visitantes. 
O que se pode observar é que a difusão e celebração das lógicas culturais do baronato impelem à fragmentação e impedem a construção de perspectivas culturais afetivas e agregadoras. Assim, também, se contrapõe  à organização de formas solidárias de sustentação material/econômica das atividades culturais, ou seja, as não pautadas unicamente pelas regras do lucro mercantil.
Terceiro, o tour e a cerca são práticas de uma mesma cadeia de relações sociais antidemocráticas, classistas, racistas e patriarcais. São resultantes de formas de organizar a vida, portanto a cultura, focadas no desmonte de espaços e serviços culturais de caráter público, sem finas lucrativos, sem exploração do trabalho e abertos à participação popular.
Explico.
Há na aŕea de museus da esfera pública municipal trabalhos de grande competência e acúmulo em pesquisas e práticas educativas na organização de tours, que apresentam a história da cidade em toda sua diversidade e complexidade. São trabalhos realizados por servidores públicos comprometidos com uma abordagem científica crítica da memória social. O que tem faltado é vontade política de valorizar e ampliar esses trabalhos. Melhor dizendo, o que tem sobrado é vontade política de destruí-los.
No tocante a cerca, um dos focos do cercamento é também um Centro Cultural, um local onde trabalhadores da cultura, servidores públicos e ativistas de coletivos artísticos, organizam atividades de reflexão e desconstrução das artes colonizadoras.
Ambos exemplos são práticas culturais não mercantis de produção e circulação de conhecimentos artísticos e científicos, portanto, que desnaturalizam processos referenciadores da mercantilização da vida tão caros aos que hoje ajudam a manter as relações sociais que continuam a extrair do trabalho de milhares a riqueza que sustenta e beneficia a classe que se perpetua no poder há séculos.
Em resumo, o tour e a cerca evidenciam as disputas pelas condições concretas materiais que definem quem tem direito e o acesso livre à cidade como um bem cultural coletivo.
Da terra à estética, das ruas às redes, dos territórios aos conhecimentos, o centro da disputa está na construção de poder social amplo, diverso e verdadeiramente participativo nos processos de decisão do que é e para quem é a cidade como bem cultural coletivo.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Você conheço o Semba?

 


 
 

 


 
Penso que desfile de Carnaval é um tipo de museu brincante produzido coletivamente por sujeitos que expressam criativamente memórias e sonhos sob a forma de músicas, danças, figurinos e múltiplas artes visuais. Um cortejo festivo, ato máximo de um largo processo de trabalho, somatória de corpos-territórios criadores e criaturas da arte, da história e do desejo de brilho. Como já disse o poeta russo e um nosso baiano tropicalizou: Gente é pra brilhar, não para morrer de fome. 
Por isso, nesses tempos pandêmicos, sem desfiles, faço um convite para uma visita ao site do artista visual e sambista campineiro Aluízio Jeremias http://aluizio.taina.org.br/sobre-aluizio/
As obras pictóricas de Jeremias, iluminam parte significativa dos corpos-memórias-territórios da cultura carnavalesca da primeira metade do século XX em Campinas, destacadamente de matriz africana. São criações especialmente produzidas para o Projeto Semba, organizado em 2012 pela Casa de Cultura Tainã, com curadoria de TC Silva.
O Projeto Semba foi uma ação de re-existência da cultura negra, pela recriação pictórica de personagens, espaços e práticas culturais de grupos sociais oprimidos pela lógica cultural capitalista que, nos anos 1950/1970,  por meio da reurbanização orquestrada pelo capital imobiliário causou a desestruturação de territórios e comunidades tradicionais afrolatinoamericanas.
Nesse processo, parte das memórias sonoras e visuais do samba e do carnaval popular foram desarticuladas e uma face musical embranquecida e europeizada foi privilegiada nas publicações oficiais da cidade.
O trabalho artístico de Jeremias tem como matriz suas memórias de menino encantado com a cultura do povo negro, que pulsava nos casebres e cortiços do baixo Cambuí, antes da gentrificação. Seus quados iluminam faces da classe trabalhadora que construiu as modernidades da cidade capital do café, mas não teve direito de usufruí-las. Jeremias nos ensina, com suas cenas de desfile-museu-brincante, parte da história dos negros da cidade.
O artista Jeremias, também um corpo-memória-território-vivo, em suas pinturas e em muitos de seus sambas deu carnatura aos territórios, às faces, à gestualidade e à sonoridade de uma parcela da população que não era reconhecida como sujeito da memória e como parte do mapa cultural da cidade, em especial nos campos das artes visuais e dos museus de arte.
Sem dúvida o Projeto Semba, iniciativa da Casa de Cultura Tainã, foi uma significativa ação contra-hegemônicas no campo das artes plásticas e da museologia social em Campinas, pois viabilizou a realização dessas imagens e as levou para exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campinas na Casa de Cultura Tainã, na Casa de Cultura Fazenda Roseiras e no Museu de Imagem e e vídeos sobre o artista no Som de Campinas. As ações do Projeto estão documentadas em https://tainamemoria.taina.net.br/.../dom.../projeto-semba ,http://aluizio.taina.org.br/
Fica a dica, caia na folia das redes da resistência nesse Carnaval.
 
Obs: Texto escrito em fevereiro de 2021.

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

MORREU A SECRETARIA, VIVA A CULTURA!

Assisti no último domingo (03/05) o encontro virtual que debateu a Lei Emergencial para a Cultura, no âmbito federal, que visa criar condições de sobrevivência para trabalhadores culturais e dar sustentação aos espaços culturais durante a pandemia. Entre os relatos, alguns secretários estaduais e municipais elencaram medidas que já estão em realização para dar conta de conter a dramática situação econômica do segmento cultural.

Ou seja, quando há vontade política é possível sim para órgãos municipais e estaduais cumprirem seu papel social de salvaguardar postos de trabalho e apoiar a continuidade de processos culturais não abarcados pelo mercado.

Porém, Campinas segue na contramão dessas políticas. Cidade que é uma das maiores do Brasil, com uma história cultural reconhecida e celebrada em todos os setores da diversidade cultural, e que também tem um movimento social de cultura organizado e atuante em coletivos, agrupamentos, associações e um Fórum Municipal de Cultura, que tem procurado abarcar e representar essa diversidade.

Contudo, a cultura do abandono não é de agora, desde o início do governo Jonas que a cultura aqui está a míngua. A especialidade da Secretaria de Cultural aqui vem sendo promover factóides, dissimulações e engavetar a lei do Conselho Municipal.

Desde que os ataques mais violentos começaram, pós Golpe de 2016, vários coletivos vêm realizando tentativas de incidir sobre os gestores públicos de cultura da gestão Jonas Donizette, com atuações que oscilam entre momentos de conciliação e outros de endurecimento nas críticas. Porém, sem declarar, até então, a total inoperância da Secretaria de Cultura em todas as suas atribuições e competências em prol da Cultura Viva.

A Secretaria de Cultura, enquanto gestora das ações culturais, está decrépita faz muito tempo. Mesmo assim, estava sendo mantida viva como uma interlocutora por parte do segmento cultural. Essa sobrevida, somada a outros ardis, foi usada pela gestão Jonas Donizette como fôlego para seguir com seu projeto de desmonte e ataques aos serviços públicos e dos trabalhadores da cultura.

Contudo, diante da gravidade da atual situação e da absoluta inoperância dos órgãos municipais — não só os de cultura — parece que o tempo de acreditar em parcerias e editais acabou, assim como a ilusão da conciliação com esse governo destruidor dos serviços públicos.

Que assim seja, pois declarar falida, melhor dizendo, falecida a Secretaria sob a gestão de Jonas Donizete é necessário para fazer Viva a Cultura e lutarmos por um projeto de governo que não seja comprometido com a morte da Cultura.

Viva à Cultura.

quarta-feira, 29 de julho de 2020

Campinas, entre a febre e a Fênix, um estudo à “contra pena”

Um dos acontecimentos da história de Campinas mais abordados pelos meios de comunicação é a epidemia de Febre Amarela no final do século XIX, entre 1889 e 1897. Em meio a atual pandemia é natural que o assunto volte com interesse realçado.
Sob qual perspectiva essas crises sanitárias devem ser revisitadas?








Sem dúvida foi um período trágico, principalmente porque causou milhares de mortes, sendo a absoluta maioria da classe trabalhadora. Também foi um dos momentos mais oportunizados pelas elites econômicas para consolidar projetos que atenderam seus interesses.
Existem pesquisas sérias que analisam aspectos importantes desses acontecimentos. Contudo, ainda há muito por ser estudado, em especial no que toca a interpretação de que as crises epidêmicas causaram uma interrupção do processo econômico e político hegemonizado pela elite cafeeira e também a construção de uma memória heróica dessa mesma elite, vinculada ao símbolo da Fênix.
Na maioria das publicações, em especial nas efemérides celebradas pela grande mídia, está presente a construção cultural representada pelo símbolo da ave mitológica que renasce das próprias cinzas.
Essa construção cultural, como símbolo de Campinas, foi oficializada por iniciativa de um vereador do Partido Conservador, em 30 de dezembro de 1889, pouco tempo após a primeira trágica onda de mortes e dias após a proclamação da República, ou seja, nos dias finais do mandato de um intendente defensor da escravização e do regime monárquico, Ricardo Gumbleton Daunt — médico irlandês que chegou em Campinas em 1842 , um dos mais conservadores e racistas dos edis locais. Por iniciativa desse senhor, foi oficializado o Brasão da cidade, com a imagem idealizada por ele, que traz, ao centro, a figura mitológica da Fênix, coberta por uma coroa imperial, ladeada por uma rama de cana e outra de café, sustentada por uma faixa com a frase em latim, “Labore virtute civitas floret”, em português, “No trabalho e na virtude a cidade floresce”.
A frase, lema do Brasão, expressa a perspectiva de uma classe dominante, para qual o trabalhador não existe enquanto sujeito, nem mesmo no seu lugar social imposto pelas estruturas capitalistas. Afinal, o trabalho de quem faz florescer a cidade? Quem determina o que é virtude na cidade?
Embora pareça inofensivo e seja desconhecido por grande parcela da população, que pouco ou nada conhece de sua história, o constructo ideológico que sustentou a oficialização deste símbolo continua ativo na dinâmica social da cidade. Para isso, existem os símbolos, para manter e ativar dispositivos ideológicos. Para estudá-los, existe a história à contrapelo, no caso, à “contra pena”.

Interrupção?

Amaral Lapa (1996) foi um dos pesquisadores que primeiro estudou as formas como o capitalismo mostrou sua face modernizante na cidade de Campinas, por meio de capitais acumulados pela exploração da mão de obra escravizada nas produções de açúcar, nos séculos XVII e XVIII, e de café a partir de 1850. Lapa elenca os empreendimentos, realizados, a partir de 1870, e introduzidos pela iniciativa dos cafeicultores para atualizar o instrumental tecnológico, cultural e institucional, dando sequência à acumulação capitalista. Ferrovias, fábricas de máquinas, casas comerciais de importados, iluminação pública, mercado de escravizados, centros de pesquisas, escolas, teatros, jornais, empresas de atração e gestão de mão de obra imigrante, igrejas e hospitais foram instalados com investimentos de grupos privados e associados pelo interesse da expansão de seus negócios e pela manutenção de seu status quo. Esses grupos sempre foram validados e impulsionados pelo Estado monárquico e, por óbvio, direcionados a fortalecer as bases de produção capitalista.
As principais iniciativas abraçadas pela elite cafeeira voltaram-se para segmentos da economia com grande capacidade de ampliar seu poder econômico e político. Portanto, o caráter modernizante e empreendedor do baronato cafeeiro nada mais foi que um impulso intrínseco à própria natureza do sistema capitalista.
Publicações acadêmicas e memorialistas, sob orientações teóricas e metodológicas variadas, qualificam as ondas epidêmicas do século XIX como acontecimentos que mudaram a história política e econômica da cidade, devido ao impacto em sua economia e ao desgaste de sua força política no cenário nacional. Impacto apresentado, por muitas vezes, como o fator que impediu a cidade de ser a capital do Estado de São Paulo. Mesmo um autor, como Amaral Lapa, que produziu trabalhos críticos sobre as forças econômicas que moldaram um ideário modernista para Campinas, incorporou a tese do propalado impacto e afirmou que as epidemias foram determinantes
“não apenas para interromper o seu processo de modernização que vimos estudando como dar em resultado políticas públicas de saneamento, higiene e saúde pública, com mudanças permanentes na vida urbana, que afetarão toda a população e implicará decisivas intervenções cirúrgicas na estrutura e morfologia de Campinas” (LAPA, p. 259, 1996).
Nesse ponto, discordo do professor Lapa. As citadas políticas públicas de saneamento e suas intervenções cirúrgicas não ocorreram após ou devido a uma suposta interrupção do processo de modernização. Em meio as epidemias, os capitalistas hegemonizaram o debate sanitário e conduziram os investimentos públicos para dentro da geografia de seus interesses. O processo de ampliação da atuação capitalista dos barões nunca foi interrompido, as “decisivas intervenções cirúrgicas na estrutura e morfologia de Campinas” foram parte da continuidade e consolidação desse processo.
Sem dúvida a classe trabalhadora e os pequenos e médios comerciantes sofreram os impactos da crise sanitária, aumentou o número de viúvas, órfãos, idosos desamparados e  adultos desempregados. Também pequenas lojas e fábricas encerraram as atividades. Porém, a afirmação de uma interrupção do processo de desenvolvimento econômico e um entrave à ampliação do poder político da elite local no cenário nacional é uma construção narrativa que necessita ser problematizada. Parte significativa dessa construção está iconicamente escrita na figura da Fênix. A quem tal idéia vem servindo?
Indiscutivelmente houve um impacto brutal sobre a classe trabalhadora, com a perda de milhares de vidas e a fome que abateu imigrantes proletários e negros recém-saídos das senzalas. Para esses grupos sociais, não foi uma interrupção, foi um massacre. O número de mortos indica a proporção da crise sanitária, os dados de 1889 variam entre 2.500 mortes e 1.200 apenas no breve período entre fevereiro de junho. Sem dúvida, até agora, este é um dos acontecimentos mais tristes da história da classe trabalhadora na cidade.
Em Campinas, como em outras cidades de similar porte e desenho social, havia registros de surtos de cólera e varíola desde a década de 1830. Na década de 1880 a febre amarela já havia feito centenas de mortes em Santos, mas nenhuma providência foi tomada em Campinas.
A febre amarela chegou com força epidêmica na cidade no momento em que os capitalistas festejavam seu sucesso com as novas atuações empresariais e debatiam os rumos de sua atuação política econômica, ou seja, os limites econômicos do modelo escravagista e os entraves políticos do regime monárquico. Campinas foi um dos principais celeiros de debates e experimentações da elite diante de suas necessidades de atualização das formas de acumulação do capital, já híbrido das dinâmicas agrárias/industriais. Atrair pobres para o trabalho em fábricas, ferrovias e lavouras foi mais um empreendimento empresarial, sem nenhuma preocupação com as condições mínimas de salubridade e moradia. Quando as consequências da expansão do sistema capitalista chegaram no tecido urbano, nos momentos iniciais da primeira onda epidêmica, em 1889, a imensa maioria da burguesia buscou refúgio em suas fazendas, retirando-se da área urbana, mas nunca abandonou a cena política.
Durante a primeira crise sanitária, em uma das vezes que a imprensa deu voz à urgência dos empresários em retomarem seus negócios, registrou também o fosso exposto entre as classes:

“[…] as classes abastadas abandonaram, é certo, os seus interesses, abrem forçadas e brusca solução de continuidade à sua atividade, mas refugiam-se, e longe dos focos pestíferos conseguem ao menos defender a vida. […] Mas os pobres, os miseráveis, vivem só quando trabalham […]. Quando os ricos se retiram, os pobres ficam sem trabalho” ( Diário de Campinas, 05 de abril de 1889, apud LIMA, p 139, 2017)- (grifos meus)

Amaral Lapa descreve a Campinas deste período como “duas cidades” totalmente distintas (LAPA, p. 123, 1996) ; eu prefiro usar a denominação classes sociais, situadas em pólos opostos de uma mesma cidade urdida pelo sistema capitalista. Embora separadas por um grande fosso político-social, estavam conectadas pela relação de exploração que alimenta o sistema e demarca os espaços urbanos. Quando chegou a primeira onda epidêmica, esse fosso explicitou-se de forma inescondível, então, gerenciar de forma mais organizada a subordinação dos explorados passou a ser uma condição urgente à sobrevivência dos exploradores.
Não há precisão nos dados, mas diversas pesquisas indicam que, em 1889, entre a área rural e a urbana, Campinas contava com cerca de 45.000 habitantes. A estimativa é a de que, no centro urbano, viviam cerca de 20.000, e mais de dois terços desses indivíduos deixaram a cidade nos primeiros dias de março. Até mesmo a Câmara Municipal deixou de funcionar em 11 de março e só retornou em 30 de abril em uma casa particular em Valinhos. Ficaram na cidade alguns membros da igreja, pouquíssimos médicos e farmacêuticos, alguns intendentes, os donos de um dos jornais, mas, a maioria era proletários, composta por negros e por imigrantes, dentre os quais trabalhavam como ferroviários, carroceiros, carteiros, coveiros, gráficos e serviçais em clínicas e hospitais.
Com a maioria das casas fechadas, a proliferação do desconhecido agente transmissor acelerou. O crescimento da curva de letalidade foi rápido — somente em abril, foram 880 mortes –, gerando um caos no já precário serviço público de sepultamento. A maioria dos óbitos notificados era de trabalhadores urbanos, sendo 460 imigrantes italianos recém-chegados.
A onda de morte aumentou a pobreza. Os governos, imperial, provincial e municipal nunca tiveram como propósito lidar com uma massa de pobres, que já se avolumavam nos centros urbanos, de outra forma que não pela absoluta submissão, com ação domesticadora das “escolas do povo”, da punição higienista e da criminalização da pobreza e da cor da pele. É necessário lembrar que as preocupações com a ordenação do espaço público e com o controle sobre as classes trabalhadoras no perímetro urbano já estavam em curso na cidade sob diversas iniciativas desde o início da década de 1880 (LAPA, 1996; MARTINS, p. 72, 2009). Com a epidemia, tais práticas ganharam centralidade política, justificativas técnicas e narrativas humanitárias. Também, a gestão da morte mostrou-se tão injusta e desigual quanto a gestão da vida. Os mais pobres morriam sem nenhuma assistência, ficando seus corpos abandonados à mercê do improviso de outros pobres (LAPA, p. 335, 1996) .
Morrer em Campinas custava 4$000 réis para crianças e 5$000 para adultos. Apesar de ser obrigatória a identificação do morto e da causa da morte, durante a epidemia, não era incomum que corpos fossem abandonados sem identificação em adiantado estado de decomposição o que impedia gestão básica de dados (LAPA, p. 334, 1996).
É dedutível a impossibilidade para inúmeras famílias proletárias, acometidas pela febre e pela fome, de gerenciar sepultamentos e arcar com os custos das regras de uma civilidade fúnebre de um modelo de sociedade no qual nunca tiveram nem ao menos suas necessidades vitais minimamente atendidas.
Ainda hoje, há uma difusa (silenciada?)memória social na cidade sobre locais de sepultamentos irregulares, uma cicatriz cultural que ainda não foi devida estudada como matéria documental. Vários autores indicam a precariedade da estrutura municipal para dar conta dos sepultamentos e da existência de locais improvisados como cemitérios. A imprensa e as atas da câmara registram reclamações e apelos por providências para punir os recorrentes abandonos de corpos nas ruas.
Diante de uma população desamparada e desorientada, membros da igreja clamavam pela ação do governo, pois ficou para eles gerenciar o que as famílias de bem haviam abandonado à própria sorte:

“Sabemos que a situação das classes proletárias em campinas é extremamente desoladora […] Pois então haverá alguém bastante crente que julgue o atual governo capaz de tornar a sério as necessidades do povo? [..] O pobre não tem direito a vida” (Diário de Campinas, 03 de abril de 1889, apud LIMA, p. 133,134, 2017).

Também ficou registrada na imprensa a indiferença da maioria dos abastados:

“E seja dito com toda a franqueza, rudemente e sem atender a preconceitos, a população de Campinas, salvo honrosas exceções, tem-se mostrado de um egoísmo pouco recomendável, de um indiferentismo pouco humano em praticar a caridade” (Diário de Campinas, 03 de abril de 1889, apud LIMA, p. 121, 2017).

Igreja e imprensa encabeçaram a arrecadação e o fornecimento de alimentos às famílias pobres, com iniciativas como a Sociedade Protetora dos Pobres e a Cruz Verde. Tais entidades rapidamente foram convertidas em instituições para a gestão dos destinos dos órfãos, em regime de internato em centros de formação de mão de obra sob orientação altamente autoritária e domesticadora (ROCHA, p.131–132, 2005).

Não houve descontinuidade da política econômica capitalista e o consequente aumento dos conflitos sociais e da pobreza

Para salvar sua pele, a burguesia deixou a área urbana, mas não a política. Na cena local e na nacional certamente não houve interrupção do projeto político e da influência do núcleo em torno do Clube Republicano de Campinas. Logo no início da República, durante a primeira crise sanitária, dois de seus maiores expoentes foram alçados ao ministério: Francisco Glicério ocupou a pasta da Agricultura e Campos Salles, a da Justiça. Campos Salles ainda fez carreira meteórica no executivo, em 1896, eleito Presidente da Província de São Paulo e, em 1898, Presidente da República (GALDINO, p. 250, 2006).
Esse protagonismo político consolidou um conjunto de apoios e subsídios para empreendimentos que já estavam entre os planejados pelos capitalistas locais, décadas antes das epidemias — o maior exemplo foi Companhia Campineira de Água e Esgoto, como analisa Santos, em

22 de janeiro de 1880 [ foi criada] Associação das Obras Hidráulicas e Melhoramentos da Cidade de Campinas, com o objetivo de estabelecer nesta cidade o seu primeiro sistema completo de saneamento básico composto de rede de águas e esgotos. Faziam parte desta proposta de organização empresarial personalidade locais lideradas por Antônio Francisco de Paula Souza, tais como o importante republicano Francisco Glicério de Cerqueira Leite, os engenheiros João Pinto Gonçalves, Luiz Augusto Pinto e os denominados capitalista Benedito Antonio da Silva, Luiz Quirino dos Santos e Próspero Belinfante” (SANTOS, p. 165, 2002)

Sobre a planta aprovada, Santos conclui

A leitura dos cortes longitudinais constantes nos desenhos deste plano de água de Campinas, como também da planta da Chácara do Paraíso, ambos de autoria do engenheiro fundador da Escola Politécnica de São Paulo, permite análises interessantes. A planta da fazenda de Antonio Manoel Proença, mesmo desenhada em outra escala, adapta-se aos cortes longitudinais da cidade que atravessam as fazendas vizinhas das famílias Bento Quirino dos Santos , Abreu Soares e Souza Aranha, fazendeiros próximos do perímetro urbano e, como observamos, vizinhos e capitalistas locais. Portanto, nestes cortes e plantas, podemos analisar o jogo de interesses privados na urbanização capitalista da cidade, naquele final de século”. (SANTOS, p. 175, 2002).

Como citado anteriormente, a Câmara Municipal ficou sem funcionar entre 11 de março e 30 de abril de 1889, data em que voltou a se reunir para aprovar verbas para a concessão da construção e exploração dos serviços à Companhia Campineira de Águas e Esgoto. Sem dúvida tal serviço de saneamento básico é vital para saúde pública, contudo, os meandros da constituição dessa empresa e a oportunidade que a epidemia ofereceu a seus consorciados, para realização de um antigo projeto que atendia seus interesses capitalistas, é tema que demanda um outro texto mais detalhado.
É preciso dizer que alguns nomes abastados constam na lista de óbitos, a maioria deles está também na lista dos homenageados com nomes de ruas e praças. A febre atingiu algumas famílias abastadas, mas não interrompeu seus projetos enquanto classe.
Agricultura, indústria, imigração, construção de casas operárias, obras públicas, gestão de serviços urbanos, educação, cultura e comunicação, todas essas áreas foram alvos da atuação capitalista de grupos familiares que se enraizaram no poder, nas palavras de Magalhães (2005), “as parentalhas” que até a década de 1920 se mantiveram no poder político e a frente de múltiplos investimentos econômicos e culturais. Como Magalhães, também Galdino (2006), Rocha (2005) e Vilella (2011), entre outros, apontam essas iniciativas como conduzidas pela mão da maçonaria — a Loja Independência foi uma das primeiras instituições criadas pela nascente força da cafeicultura campineira, em 1867.

Não houve prejuízo à imigração, mas houve aumento da exploração

A transição para a mão de obra assalariada, que já estava em curso, manteve-se e foi ainda mais impulsionada com recurso de governos republicanos.
No que toca o número de braços para o trabalho assalariado, as epidemias também não causaram retrocesso nos interesses dos capitalistas. Uma das preocupações dos capitalistas ao abafar as notícias sobre as condições sanitárias da cidade era a atração de proletários estrangeiros para trabalhar nas lavouras e fábricas. Uma das ações para afabar a gravidade da epidemia foi a produção de instrumentos de propaganda, em várias línguas, para divulgar na Europa o que afirmam ser um rígido controle sanitário que os órgãos públicos realizavam para erradicar a febre, visando a atração de mão de obra imigrante.
Nesse ponto, a análise dos dados das décadas seguintes mostram a rápida recomposição do fluxo migratórios e a manutenção da tendência de crescimento populacional, estudos demográficos apontam que a projeção de crescimento da população para o período não sofreu descontinuidade. Em 1895, a população estimada de Campinas era de 51.636 indivíduos e em 1929 era de 120.005, com base nesses dados Bassanesi e Cunha afirmam “as epidemias, pelo que tudo indica, não conseguiram alterar a tendência de crescimento populacional do período, pois o movimento migratório e a taxa de natalidade mantiveram-se altos” ( BASSANEZI, E CUNHA, p. 22–23, 2019). Ou seja, mesmo sob surtos epidêmicos de febre amarela entre 1889 e 1897 a populacional da cidade continuou ascendente, em muito incrementada pelas levas de imigrantes.
Nessa toada, na mesma medida em que determinava padrões higienistas e normas técnicas de construção, a expansão capitalista impunha à classe trabalhadora o modelo de moradia operária das vilas controladas e mercantilizadas pelos patrões, assim como, também, continuava a empurrar para territórios insalubres grande parcela da população proletária, em maioria de origem negra.

Houve racismo, discriminação e silenciamento

O trato com a população negra durante as crises sanitárias do final do século XIX é um assunto sobre o qual ainda está por ser feita uma investigação a contento. A forma como o baronato, incluindo o núcleo republicano campineiro, lidou com o tema da presença dos negros, especialmente nas áreas urbanas, no período pré e pós abolição sempre deixou evidente as práticas racistas da elite local.
No início da década de 1880, para grande parte dos fazendeiros de Campinas, o negro passou a ser um peso e um mau negócio. Após a lei de proibição do tráfico internacional (1850), as cobranças de impostos do comércio interno entre estados (1881), o imposto municipal sobre a averbação de escravizados (1886), as medidas de saúde pública que exigiam a vacinação dos escravizados (1823) a cargo dos fazendeiros, o custo de manutenção desse tipo de mão de obra passou ser reavaliado pelos cafeicultores paulistas. Para a classe política dirigente, os cafeicultores, os negros tornaram-se “mais um espantalho que um auxílio” (Gazeta de Campinas, 8 de janeiro de 1885 apud BIANCONI, p. 48, 2002).
Espantalho, significativa alusão à desumanização do trabalhador negro e ao medo das suas justas revoltas! Medo do que um contingente de seres humanos, há séculos explorados pelas relações de poder, poderiam fazer na luta por sua dignidade.
Os cafeicultores exigiram que o Estado encontrasse a melhor solução que garantisse sua lucratividade e segurança, portanto, começa a ocorrer uma mudança no padrão de investimentos com a transferência de investimentos anteriormente alocados em aquisição e manutenção de escravizados “para ativos financeiros, estoques e cotas de capital social de empresas bancárias, ferrovias, industriais e comerciais” (ABRAHÃO,p.90, 2019).
No momento de expansão do sistema capitalista, Campinas foi uma das primeiras cidades a receber imigrantes e a experienciar a transição do sistema de mão de obra escravista para a assalariada.
Nas décadas de 1870 e 1880, informa Abrahão que, devido a opção de substituição paulatina do sistema de mão de obra, a convivência entre escravizados e colonos elevou a tensão na área rural, tanto por parte dos negros que intensificaram as tentativas de resistência em defesa de suas vidas por meio de fugas e embates corporais, como também a repressão por parte de capatazes e senhores, incluive com assassinatos de escravizados com brutalidades espetaculares, visando coibir iniciativas de revoltas (ABRAHÃO, p 41,42, p. 2019).
No final da década de 1880, a população negra era aproximadamente 20% do total de habitantes (entre rural e urbana), mas, na cadeia local, os negros eram 50% dos encarcerados. Não era incomum o aproveitamento do trabalho de apenados pelo poder municipal nos casos de pequenos delitos, quando, além de submetidos aos açoites, os negros recebiam, como punições, trabalhos forçados nos serviços de manutenção das vias e prédios públicos. Também havia certa instrumentalização nas concessões de alforrias que, na realidade mantinham, sob dissimulação, vínculos opressivos de exploração da mão de obra negra “liberta” (PEDRO, 2002).
Nesse processo, no centro urbano de Campinas, gradativamente aumentava o número de negros não escravizados (alforriados, semi-alforriados ou abandonados) que, em condições de extrema vulnerabilidade, buscavam a sobrevivência em trabalhos sub remunerados e sazonais ( LAPA, p. 247, 1996).
A desumanização do corpo negro como mero instrumento de lucro, como “peças fortes e produtivas” — argumentação por séculos usada para sua coisificação mercantil — divergia da presença de uma massa humana faminta, adoecida e deixada à própria sorte pelos becos e cortiços da cidade, mesmo no período pré abolição. Sobre o negro na vida urbana, Maciel (1985) analisa que a gestão da pobreza urbana passou a ser tema de discussões na imprensa, sempre sob a ótica da criminalização do indivíduo pobre, em especial dos negros. A sujeição física, social, econômica e moral da população de negra se deu também pela via da ação policial e sanitária. A cólera, varíola e febre amarela eram identificadas como moléstias que acometem “as classes baixas, e a gente de cor” (LAPA, 1996).
No momento em que a epidemia se instalou, recaia sobre a população negra dois estigmas aparentemente contraditórios: de um lado ser foco principal de disseminação das doenças e, de outro, ter atributos fisiológicos que os faziam imunes à letalidade das pestes. Aparentemente contraditórios, ambos são intentos de aniquilação do negro como ser humano e como sujeito social merecedor de atenção das instituições públicas.
Sobre os números de vidas perdidas no período, 1889–1897, um traço comum nas publicações, acadêmicas e memorialísticas é a menção a lacunas nos registros oficiais, principalmente dos hospitais barracas temporários instalados em períodos críticos. Albino, em pesquisa ampla sobre doenças e demografia, destaca a ausência de dados dos hospitais, em especial dos temporários (ALBINO, 2020).
Assim como não há exatidão quanto ao número geral de mortos, não há registros precisos sobre a porcentagem da população negra entre os óbitos nas ondas epidêmicas do final do século XIX. Essa falta de informações levou às formulações discursivas que os negros eram imunes à letalidade da doença. A ausência de dados foi traduzida como constatação da inexistência de número significativo de óbitos de pessoas negras, criando assim um oportuno falseamento sobre o assunto. O que parece necessário indagar é se o número reduzido de registros de mortes de negros pode ser lido como uma indicação do descaso dos agentes oficiais com a situação dos corpos negros, vivos ou mortos. Em meio à desordem das regras mínimas de gestão da morte, quem pagaria pelo enterro de seres humanos tratados como “espantalhos”?
Assim, urge indagar sobre a conveniência para o governo municipal da não notificação de parte dos óbitos, induzindo assim uma falsa quantificação da letalidade entre a população negra e também na quantificação geral. Tais procedimentos de ocultação intencional e manipulação por parte dos agentes do Estado de dados sobre a morte de populações oprimidas são práticas conhecidas em outros momentos de crise sanitárias e conflitos de classe.
A vida, a morte e a memória de negros nas epidemias de febre amarela em Campinas não foram ainda totalmente analisadas. Embora exista uma produção comprometida com a denúncia do racismo e da violência sofrida pelos negros no período, a história da febre amarela em Campinas ainda aguarda um estudo mais aprofundado e que se dedique com afinco às fontes documentais não sujeitas aos filtros das institucionalidades burguesas reguladoras da vida, da morte e da memória. Sobre as lutas e resistências dos negros em Campinas, pesquisas como as de Giesbrecht (2012), Maciel (1985), Martins (2017), Pedro (2002) e Oliveira (2016), entre outros, estão na trilha dessa perspectiva, contudo, destaco que se faz necessário um estudo que busque respostas para o vazio de informações sobre a população negra nesses momentos de crise sanitária.

No conjunto da obra: muita celebração seletiva e negação das razões sistêmicas

A maioria das narrativas apresenta como duas ondas epidêmicas distintas, a de 1889 e a de 1890. Uma das exceções é o trabalho de Silva (2012). Concordo com a observação deste pesquisador, tratou-se de uma ocorrência epidêmica que se estendeu no biênio, em várias fases. Penso ser possível também estender essa problematização não apenas para esse biênio, mas para todas as datações das várias epidemias desse período, tendo em vista que as ocorrências de 1889 a 1897, foram todas decorrentes de fatores estruturais do sistema capitalista: deslocamentos de massas de proletários, sob condições insalubres de transporte, habitação e remuneração, com os respectivos impactos nos espaços urbanos.
Não vou me aprofundar no tema das divergências sobre o conhecimento médico do período, mas é importante observar que a pesquisa do Dr. Carlos Juan Finlay, médico cubano, desde 1881 havia identificado o mosquito como agente transmissor, porém, só foi reconhecida pela comunidade médica internacional no início do século XX. No geral, as teorias médicas para o tratamento estavam longe de incidir sobre as causas sistêmicas. Miasmas, focos de água, insalubridades em geral eram identificados como causas da enfermidade, mas, as medidas sanitárias eram aplicadas sob a ótica da culpabilização do pobre e não das causas da pobreza. As causas sistêmicas nunca foram abordadas, pelo contrário.
No período que focamos, o que imperou no Brasil e fortemente em Campinas, foram teorias sanitárias que se coadunam com a contratação de empresas para obras em espaços públicos e privados ( KROGH, 2012).










No quadro acima (apud Ribeiro, 2017) elaborado com os dados conhecidos de óbitos do período 1889–1897, é possível algumas observações. A mais explícita é a ocorrência de um período longo, com ciclos de picos epidêmicos entremeados por períodos em que não há registros ou informações sobre o número significativo de adoecimentos e falecimentos.
A dinâmica cíclica dos picos de óbitos possibilita compreender que houve um período epidêmico de cerca de nove anos, com registros oficiais de três crises sanitárias mais intensas, cada uma com perfil próprio, mas todas causadas pelas condições desiguais da sociedade capitalista. A primeira, a de maior letalidade, ocorreu entre fevereiro de 1889 e junho de 1890; a segunda em 1892 e a terceira entre o início de 1895 e meados de 1897, sendo 1896 o ápice da crise. A ausência de dados sobre 1893 e 1894, suscitam dúvidas sobre como o assunto foi documentado nesse período.
Ainda quanto à cronologia das ocorrências e suas celebrações, há alguns aspectos que devem ser sublinhados. O primeiro é a pressa dos gestores de cada período em demarcar o fim de cada crise e realizar celebrações da retomada da normalidade.
Um texto publicado no Diário de Campina, 07 de outubro de 1890, explicita a apressada declaração da volta à normalidade e celebra o novo ciclo de “iniciativas, fontes de riquezas e properidade” dirigido pelo capital imobiliário e sob a atuação de empresas construtoras:

Campinas vai renascendo notoriamente (…) E uma nova energia, uma nova força vai desentorpecendo o seu organismo abatido e enchendo os ares dos alegres ruídos de um trabalho ativo que comunica aos espirito uma rigidez sadia de atleta,confinado na própria musculatura férrea. Uma das provas evidentes de progresso vertiginoso desta cidade temo-la nos acréscimos de preço que tem adquiro dos terrenos ultimamente, com especialidade as o bairro Guanabara e a grande procura deles, apesar da elevação do preço. Outro fato que indica nos campineiros a mesma coragem de outros tempos, o mesmo espírito de iniciativa, está nas organizações das companhias que se tem dado de certo tempo a esta parte, alguma das quais por si só constitui uma fonte de riqueza para o município. A companhia Construtora só por si já representa um grande passo para a prosperidade de campinas, visando, como visa a construção de novos prédios e a reconstrução dos velhos. ( apud LIMA, 2014, v.2. p.402)

Um segundo aspecto é a celebração efusiva da superação total das causas da crise. O símbolo da Fênix foi criado com esse objetivo, num momento em que as preocupações deveriam se voltar ao enfrentamento efetivo das causas reais da epidemia. A escolha, no entanto, foi fazer um jantar festivo em homenagem aos beneméritos e tentar abafar o assunto, uma decisão que, no mínimo, pode ser qualificada como negacionista, ou seja, desconsideração, intencional ou não, dos reais condicionantes sistêmicos da crise sanitária.
A preocupação da burguesia era garantir a continuidade da vinda de imigrantes, pois, na realidade, sem trabalhador não há produção de riqueza. Nesse ponto, o imediatismo capitalista não poupou vidas, como dito no artigo publicado em 1889, para a elite pobres “vivem só quando trabalham”.
Sobre o fluxo migratório, informa Souza (2006. p. 90) que, em 1895, “entrou em São Paulo o maior número de imigrantes do final do século XIX”. A emulação à vinda de mais imigrantes sujeitados às condições insalubres das cidades capitalistas acelerou os picos epidêmicos, pois, sob o capital não há como equacionar saúde pública com a existência de um contingente de pessoas em subcondições de vida para serem obrigadas a vender sua força de trabalho.
Parte significativa da narrativa oficial, assumida por muitos dos cronistas do tema, tratou cada pico epidêmico como uma ocorrência descontinuada das demais. Também são conhecidas as tentativas negacionistas, com a dissimulação e o abafamento de novas ocorrências. As reincidências de casos foram abafadas pela imprensa e uma significativa produção iconográfica foi realizada para apagar os vestígios das crises (FARDIN, 2001).







Esta foto com identificação de datação entre 1896 e 1906, está publicada em livros e jornais que tratam do tema, o original da imagem pertence a coleção Museu da Imagem e do Som — Campinas, mas existem reproduções na Coleção Maria Luiza Pinto de Moura na coleção Geraldo Sesso Jr — CMU — Unicamp. É a única que registra explicitamente a crise sanitária entre 1889 e 1897, é uma documentação visual das políticas de higienização. Nenhuma outra imagem relativa ao assunto foi realizada? Essa é uma das questões que permanecem por pesquisar (FARDIN, p. 49, 2001).
O Jornal “Cidade de Campinas”, de 06 de fevereiro de 1900, em seu editorial intitulado “A febre amarela e a Gazeta do Povo” deixa registrado o desconforto da imprensa local na divulgação dos fatos relativos às recentes epidemias. O artigo registra a divergência entre a “Gazeta de Campinas” e o jornal “Cidade de Campinas” sobre a divulgação de dois supostos casos de febre amarela; o jornalista conclui que os dois casos foram de “mau de sião” e ainda afirma: 

E a prova de que andamos bem é que ahi está a população convencida do excelente estado sanitário e tão cheia de esperanças que de nada valem os reclamos dos informes oficiais” (Apud FARDIN, p. 50, 2001).

Ainda um terceiro aspecto, o caráter classista e racista das celebrações de memória produzidas pelos gestores e intelectuais sob a égide do capital, já em 1889.
Se há dúvidas na quantificação dos mortos, o certo é que houve uma significativa produção de seletivas homenagens. Logo nos meses seguintes a primeira onda, várias placas honoríficas e monumentos foram criados para homenagear beneméritos, médicos, comerciantes, industriais, jornalistas, governantes e religiosos. Sem dúvidas, entre esses, há os dignos merecedores, contudo, as ações de memória tiveram funções políticas: abafar as dimensões reais da crise para evitar que os interesses empresariais sofressem descontinuidades e promover celebrações de nomes de empresários republicanos maçons como os salvadores da cidade. Enraizar seu poder no mapa do centro urbano, com nomes de ruas e praças, foi uma das estratégias de memória da elite (VILLELA, 2008). Ainda hoje permanece explicitada no traçado do centro urbano a expertise da elite do final do Século XIX em ocupar o espaço mais nome do momento, como um grande livro de sua autocelebração.
No mapa das celebrações, uma outra óbvia questão: quem trabalhava nas funções elementares básicas de enfrentamento à epidemia? Faxineiras, cozinheiros, lavadeiras, coletores de dejetos, cocheiros, entregadores de víveres, enfim, as funções essenciais em palacetes, hospitais, clínicas médicas, farmácias, jornais, repartições públicas, etc. Entre esses não ocorreu nenhuma atuação digna de homenagem? Nenhum óbito de negro entre os que atuaram no apoio aos enfermos?
Se ainda não há dados que comprovem que o mesmo tenha acontecido na vida material, na esfera das celebrações oficiais, os pobres, em especial os negros, certamente foram para a vala comum da história contada pelos barões e seus asseclas.






FONTES E CITAÇÕES
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