domingo, 25 de dezembro de 2022

Retomadas: o debate

 


https://www.catarse.me/retomadas


Esse projeto foi criado com o objetivo de viabilizar a realização de uma publicação on-line, bilíngue e de distribuição gratuita, que conte a trajetória do núcleo Retomadas, integrante da exposição Histórias Brasileiras, atualmente em cartaz no Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, o MASP.

A publicação será editada pela Expressão Popular e conta com co-organização da curadoria do núcleo Retomadas, Clarissa Diniz e Sandra Benites, do Coletivo de Arquivo e Memória Nacional do MST e dos artistas e acervos de André Vilaron, João Zinclar e Edgar Kanaykõ Xakriabá.

Além de ampla documentação sobre a trajetória do núcleo Retomadas no MASP, a publicação irá comissionar textos e ensaios visuais inéditos que desdobrem e aprofundem alguns dos temas centrais ao debate: lutas sociais, museus, representatividade, memória e acervos dos movimentos sociais, ética e violência institucional, neoliberalismo e política culturaI.

Junto à edição da publicação, essa campanha também tem como objetivo apoiar a ampliação, o aprofundamento e a continuidade do debate crítico e público precipitado pelos acontecimentos em torno do núcleo Retomadas: uma discussão que não se iniciou com a realização do referido recorte curatorial e que, pelo mesmo motivo, tampouco deve ser encerrado com ele.

À convite do MASP, as curadoras Clarissa Diniz e Sandra Benites desenvolveram o projeto do núcleo curatorial Retomadas para a exposição Histórias Brasileiras, com curadoria geral de Adriano Pedrosa e Lília Schwarcz.

Com a participação de artistas e ativistas, o núcleo reúne documentos e obras que refletem acerca do processo que toma a luta pelo direito à terra como sua coluna vertebral, estendendo-se também às línguas, corpos, imagens, representações e representatividades.

Em maio de 2022, o Retomadas foi cancelado por suas curadoras após o MASP vetar a inclusão de fotografias de Edgar Kanaykõ Xakriabá, André Vilaron e João Zinclar que documentam a luta do MST e dos movimentos indígenas contra o saque colonial e a desigualdade fundiária brasileira.

Para Clarissa Diniz e Sandra Benites, o cancelamento foi uma escolha ética diante da “impossibilidade de incluir, no Retomadas, a completa representação que o intitula".

O cancelamento e suas motivações tornaram-se públicas, o que levou a um debate que culminou com o reconhecimento do erro institucional por parte do MASP e a subsequente retomada do núcleo, que voltou a integrar – com a totalidade de suas obras – a mostra Histórias Brasileiras.

Neste processo de uma negociação aberta, as curadoras do núcleo, o MST e os artistas cujas obras foram vetadas elaboraram proposições de reparação diante da violência institucional que sofreram.

Uma delas, contudo, não foi acolhida pela instituição: a realização de uma publicação que possa debater a trajetória do Retomadas e levar o debate ao maior número possível de pessoas pelo Brasil afora.

E esse é o objetivo dessa campanha de financiamento: viabilizar a publicação que ficou de fora dos acertos entre o MASP, as curadoras e os artistas, de forma a lutar contra o risco de apagamento e de silenciamento que ronda as situações de luta e conflito histórico que não são devidamente debatidas, documentadas e historiografadas.

As RETOMADAS continuam: elas não se encerram em eventos como exposições ou seminários. Esta publicação é parte da caminhada ancestral que constitui a luta pelas retomadas.

As RETOMADAS não podem ser apagadas: diante da dissipação das informações no mundo digital, é crucial documentar o processo em torno do veto, da negociação e do debate público que se deu no âmbito de um dos maiores museus do mundo.

As RETOMADAS não podem ser silenciadas: a publicação para a qual aqui buscamos recursos constava entre as propostas de reparação que o núcleo elaborou para o MASP. Posto que sua realização não foi acolhida pelo Museu, não podemos aceitar que esta impossibilidade institucional venha a produzir o silenciamento do debate crítico em curso



Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra | Com 40 anos de história, o MST segue sendo o maior movimento popular da América Latina na luta pela democratização da terra e por mudanças sociais.

Coletivo de Arquivo e Memória do MST I
 O coletivo foi formado em 2014 com o objetivo de centralizar a tarefa de gestão e preservação dos documentos do Movimento, mas não só: também refletir e massificar o debate sobre patrimônio cultural, a importância da memória para os movimentos sociais através de formação e articulação com outros acervos da classe trabalhadora.

Editora Expressão Popular | Criada em 1999 com o objetivo de democratizar o acesso ao conhecimento, a Expressão Popular conta com mais de 600 títulos publicados em diversas áreas do conhecimento, como política, economia, agroecologia e literatura.

Curadoras do núcleo Retomadas | Sandra Benites e Clarissa Diniz, curadoras, se conheceram em 2016 no contexto do projeto Dja Guata Porã: Rio de Janeiro indígena (Museu de Arte do Rio, 2017), do qual foram co-curadoras. Desde então, têm dialogado continuamente sobre as formas de aliança e de disputas que se dão no múltiplo e assimétrico território das artes.

Artistas do núcleo Retomadas que tiveram suas obras vetadas pelo MASP | André Vilaron, Edgar Kanaykõ Xakriabá e João Zinclar são os artistas cujas fotografias tiveram sua participação no núcleo Retomadas vetadas pelo MASP. Por décadas, têm se dedicado a documentar as lutas sociais em curso no Brasil, denunciando suas violências, amplificando suas pautas e reverberando suas potências.

Acervo João Zinclar I O arquivo de imagens, resultante do trabalho do fotógrafo Zinclar, entre 1994 e 2013, foi reconhecido publicamente por seus parceiros como um instrumento de comunicação visual dedicado exclusivamente para questões e objetivos dos movimentos sociais em suas lutas anticapitalistas e de enfrentamento às práticas colonizadoras. Após seu falecimento, em 19 de janeiro de 2013, este arquivo se converteu no Acervo João Zinclar, uma organização sem fins lucrativos coordenado por Sônia Fardin, historiadora, e Victória Ferraro Lima Silva, filha do fotógrafo.

 A elaboração da publicação Retomadas: o debate, sob a responsabilidade da Editora Expressão Popular, custará R$100.000,00 (cem mil reais), incluindo, neste valor, também os custos desta campanha de financiamento coletivo.Campanha

agosto a novembro de 2022

  • Chamada pública e convites para colaboração

dezembro de 2022 a março de 2023

  • Organização, revisão, tradução e edição do livro

março a junho 2023

  • Envio das recompensas

julho 2023

  • Lançamento, distribuição e debates

julho a agosto 2023

Povos indígenas, negros e negras ficam de fora da festa de Dario Saadi

Por Sonia Fardin e Adriano Bueno (*)


Foto: Fernanda Sunega / Fonte: Site da Prefeitura de Campinas

O governo Dario Saadi organizou, nesta semana, as comemorações oficiais do aniversário de 248 anos de Campinas. Segundo notícia do site oficial da prefeitura, as comemorações foram marcadas pela “integração entre os povos” (leia aqui). A foto acima não expressa exatamente esta “integração”.

Os 8 povos em questão são: Japão, Líbano, Itália, França, Estados Unidos, China, Equador e… Brasil (?). A matéria no site da prefeitura informa que os 7 países foram escolhidos por serem os “países com representações consulares em Campinas”.

Mas, o Ministério das Relações Exteriores, em seu site, informa que apenas 3 destes 8 países possuem representação consular na cidade de Campinas: Líbano, Itália e França. Veja com seus próprios olhos aqui.

Ou seja, 2 países que possuem representação consular não constam na lista (Portugal e Espanha); e 4 países sem representação consular constam (Japão, Estados Unidos, China e Equador).

O que fica explícito é que para a festa, com apresentação de danças e feira gastronômica típicas, nenhum país africano esteve presente e toda a diversidade de povos originários que também integra nossa raiz cultural foi reduzida a uma barraca chamada “Brasil”.

Detalhe: a barraca “Brasil” vendia espetinhos industrializados. Ficou resumida a isso toda a riqueza das matrizes indígena e africana que existem em nossa gastronomia ancestral.

O site destaca, ainda, uma fala do prefeito Dario Saadi:

“As pessoas que vieram para cá, como eu, as pessoas que nasceram aqui, enfim, todos ajudam a construir a cidade. Temos o desafio de fazer a cidade crescer e reduzir as desigualdades e a população de Campinas sabe enfrentar desafios”

Se a celebração do aniversário foi um momento de reunir de fato “todos (que) ajudam a construir a cidade”, é de causar espanto que o governo Dario Saadi não tenha viabilizado a presença de nenhum país africano nas celebrações.

O Brasil é o país que concentra a segunda maior população negra no mundo, ficando atrás apenas da Nigéria. Afrodescendentes são a maioria da população brasileira.

Campinas cresceu e se desenvolveu como polo produtor do café porque sua classe dominante usou o trabalho de africanos e seus descendentes. Trabalho escravizado.

Em Campinas vivem 1.043 indígenas. Parece pouco, mas não é, se pensarmos no genocídio a que foram submetidos. Campinas é a terceira cidade com maior população declarada indígena em contexto urbano no estado de São Paulo segundo o Censo Demográfico de 2010 (IBGE).

O mesmo Censo de 2010 nos mostra que 349.244 pessoas se auto declaram “pretas” ou “pardas” em Campinas.

A cidade está assentada sobre a vida de milhares de indígenas e africanos. Seus descendentes, por meio de muitas lutas, mantêm viva a herança cultural de matrizes africana e indígena.

No parágrafo final da matéria, no site da prefeitura, fala-se dos tropeiros; fala-se de Francisco Barreto Leme; fala-se da primeira missa na capela provisória de palha e do Frei Antônio de Pádua, que a celebrou. Nada sobre indígenas, negros ou negras.

Cabe, como fez Brecht, perguntar: “não tinha nenhum cozinheiro com eles?”

É como se não existissem. Mas, só que não. Existem, resistem, não se calam e seguem perguntando: como “fazer a cidade crescer e reduzir as desigualdades” deixando de lado uma expressiva parcela dos trabalhadores de Campinas nas comemorações de aniversário da cidade?

(*) Sonia Fardin e Adriano Bueno são integrantes do Conselho Municipal de Política Cultural e militantes do PT de Campinas.

Texto publicado em Página 13 https://pagina13.org.br/povos-indigenas-negros-e-negras-ficam-de-fora-da-festa-de-dario-saadi/

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

TONINHO DO PT, ABRINDO AS PORTAS DO PALÁCIO

 

 
 
 


 
 
Não era para eu ir ao Palácio dos Azulejos naquela manhã de março de 2001. Estava de férias, mas precisei ir buscar a filmadora que havia esquecido em minha sala de trabalho.
Cheguei muito cedo, peguei a câmera e quando estava saindo do prédio encontrei o prefeito Toninho do PT, acompanhado de alguns assessores, que ao me ver disse: "Bom dia, vamos abrir o Palácio! Entra comigo".

Eu não fazia ideia do que ia acontecer, mas, aceitei o convite, liguei a filmadora e o segui.
Toninho entrou e foi abrindo as portas e janelas da sala que foi ocupada como gabinete oficial dos prefeitos de Campinas entre 1908 e 1968.

Antônio da Costa Santos, o Toninho do PT, era arquiteto e militante político, mas, principalmente, um conhecedor da história e das questões políticas, sociais e econômicas de Campinas. Por isso, naquela manhã de março de 2001, pouco mais de dois meses após tomar posse como prefeito, organizou um ato singelo para marcar a forma como sua gestão se diferenciaria das anteriores.

Não por acaso o lugar deste ato foi o Palácio dos Azulejos. Com fachada imponente, o palacete foi construído pela elite cafeeira em 1878, um símbolo de luxo e ostentação do baronato; em 1908 foi vendido para a municipalidade e passou a ser local do gabinete dos prefeitos republicanos. Com o crescimento urbano, o Palácio passou a ser de fácil acesso à população.

No final da década de 1960, com a ditadura e o recrudescimento das lutas sociais, os dirigentes públicos decidiram transferir a sede da prefeitura para um lugar afastado da rua, longe dos olhos e das vozes da população. Foi construído então outro palácio, o dos Jequitibás, localizado em terreno recuado do passeio público, com o gabinete do prefeito instalado muitos metros longe da rua.

No entanto, este outro gabinete não escapou das lutas de resistência; nas décadas de 1970 e 1980, os integrantes da Assembleia do Povo - movimento por moradia e participação popular na gestão pública - periodicamente ocupavam as escadarias e a entrada do novo Palácio. O jovem arquiteto e militante Toninho estava entre eles,  vivenciou a força das ações simbólicas, como estratégia para fazer luta política pelo direito de todos à vida digna e à participação nas decisões públicas.

Em razão disso, em 2001, quando foi eleito prefeito escolheu reverter o significado dos dois Palácios: o dos Azulejos, edificação que exemplifica o poder da elite, e o dos Jequitibás, que materializa o distanciamento dos gestores públicos da defesa dos direitos da população.

Neste propósito, um dos seus primeiros atos públicos foi a instalação de um gabinete mais próximo do povo; além do já existente no terceiro andar do Palácio dos Jequitibás, na Av. Anchieta, instalou um outro, no Palácio dos Azulejos, na mesma sala ocupada pelos prefeitos em décadas passadas, cujas janelas ficam rente à calçada da Rua Ferreira Penteado, no centro da cidade.

Ao instalar esta outra sala de trabalho e abrir suas janelas coladas na rua, Toninho não almejava somente uma simbólica mudança de endereço, mas sim transformar as reais formas de ocupar o lugar de poder e a função pública de prefeito, para realizar mudanças concretas nas práticas políticas na cidade.

Seu ato sintetizou a decisão de ampliar e garantir o poder popular na gestão da cidade e dos recursos públicos.

Toninho foi assassinado em 10 de setembro de 2001, mas o significado do ato feito por ele naquela manhã de março de 2001 continuou vivo.
Após 20 anos de seu assassinato, seu gesto permanece vivo em todos os que seguem clamando por justiça e lutando por poder popular e uma sociedade igualitária.

A LUTA CONTINUA. TONINHO, PRESENTE, HOJE E SEMPRE!

Sônia Aparecida Fardin 


obs: Esse meu texto é antigo, mas nossa luta também! Virou uma cerimonia anual em homenagem a todos os que seguem a luta por justiça.

- 01 de janeiro de 2001, tomam posse Antônio da Costa Santos (Toninho do PT) e Izalene Tiene - prefeito e vice de Campinas.
- 04 de março de 2001, Toninho abre as portas do Palácio dos Azulejos como espaço público.
- 15 de março de 2001, Toninho anuncia a abertura da antiga estação como espaço público municipal.
- 10 de setembro de 2001, é assassinado Antônio da Costa Santos.
- 11 de agosto de 2002,a prefeita Izalene Tiene, o secretário de cultura Valter Pomar e os trabalhadores da Secretaŕia de Cultura inauguram a Estação Cultura, espaço público de cultura, educação, lazer e memória.
- 10 de setembro de 2004, Izalene Tiene, o secretário de cultura Valter Pomar e os trabalhadores da área de Memória e Patrimônio da Secretaria de Cultura inauguram o Palácio dos Azulejos - sede do Museu da Imagem e do Som, espaço público de memória e lutas sociais.

TONINHO ABRINDO AS PORTAS DO PALÁCIO

sábado, 17 de julho de 2021

Meus percursos pelas memórias de Campinas (1)

 

 
 
 
 




À convite da artista Andrea Mendes passei as últimas semanas às voltas com o acervo do Museu da Cidade, na organização da exposição OCUPAÇÃO ESCRITAS OCULTADAS.
Não foi a minha primeira atuação com ambas, nem com a artista, nem com a trajetória do museu.
A exposição é parte da publicização da pesquisa da artista sobre Adinkras, iniciada em 2017, que agora se propõe a realizar intervenções artísticas provocativas no acervo do Museu.
Como temos muitos anos de interlocução e colaboração fui convidada por ela a cuidar da curadoria e contribuir na reflexão sobre as relações entre gestos artísticos e musealização de objetos históricos.
Ambas entendemos a curadoria como diálogo entre saberes de campos que se iluminam.
Assim trabalhamos, com a arte iluminando a prática museal e vice-versa, e nos pusemos a campo para acessar os objetos expostos e os registros museológicos do acervo. Nesse caminho reencontrei um documento que registra meu trabalho como Diretora do Departamento de Memória e Turismo, entre 2002 e 2004: a página que abre os livros dos registros do inventário do museu. Os livros são resultado da reorganização completa do inventário do acervo, realizado em 2002-2004, dando sequencia ao que fora iniciado em anos anteriores. Todo este trabalho foi feito pela equipe do museu, com muito profissionalismo. Meu único papel foi garantir as condições institucionais e estruturais para essa ação.
Hoje, tenho muita alegria e orgulho de encontrar este trabalho e, como pesquisadora, usufruir de tudo o que ele possibilita para acessar o acervo e propor reflexões para continuar a pensar criticamente a história de Campinas.
Obrigada a toda equipe do museu e a Andrea, por me provocar a olhar para Sankofa: “nunca é tarde para voltar e apanhar aquilo que ficou atrás”

Duas faces de uma mesma disputa: Tour da Baronesa e o cercamento das ruas do Bairro Terras do Barão

 

 Sobre esses dois acontecimentos que marcaram a semana do aniversário de Campinas, gostaria de compartilhar algumas considerações.

 
 
O Tour da baronesa causou inquietações e críticas em alguns espaços das redes virtuais.
O Tour convida a população a pagar ingressos para assistir a apresentação de um roteiro histórico sob a condução de uma guia que interpreta uma personalidade histórica da aristocracia cafeeira, uma baronesa.
Portanto, tudo na divulgação leva a entender que a história da cidade será apresentada por um corpo, uma voz e modo de ser de uma classe social vinculada à aristocracia cafeeira.
Uma classe que teve seus privilégios extraídos da exploração do trabalho de milhares de negros escravizados e imigrantes europeus pobres.
À tal figura, que simboliza o poder econômico e cultural de uma classe, é dado o lugar de narradora da história da cidade na semana de celebração de seu aniversário.
Nada novo nesse roteiro, os detentores do poder econômico em Campinas há muitos séculos têm feito com grande eficiência suas celebrações. No traçado urbano, barões e baronesas, têm demarcado os espaços públicos da cidade com os nomes dos seus, garantindo a hegemonia cultural nas placas de ruas centrais, nos rostos expostos nos museus e nas maioria das publicações que celebram a história das cidades paulistas
O tour, portanto, é mais um evento cultural que tem caráter ideológico colonizado e colonizador, ao produzir e reproduzir um explícito discurso político que celebra uma classe social opressora e, mais uma vez, naturaliza mecanismos de poder que definem quem tem lugar e livre circulação nos espaços públicos e privados.
É mais uma manifestação das estruturas de poder que legitimam e perpetuam uma forma de organizar a vida cotidiana na cidade sob a lógica da segregação. Segregação dos corpos negros, pobres e periféricos, ou seja, todes que não se enquadram no padrão estético, politico, étnico, patriarcal e econômico, instituído pelas formas capitalistas de produção e periodicamente reafirmado pela celebração da propalada “modernidade do baronato campineiro”.
Vale ressaltar que não é a trabalhadora, que realiza a tarefa de guiar o tour, a responsável pelo viés ideológico do evento. Esse tipo de ação de turismo cultural tem origem nas relações mercantis que organizam a base material da atividade cultural, não só em Campinas.
É nesse ponto que devemos colocar nossas observações: as formas de organizar as relações sociais de produção, de financiamento, de participação e de controle social dos mecanismos de criação e circulação de arte/conhecimento/valores=vida.
Que relações existem entre este tour e o cercamento do Bairro Terras do Barão?
Muitas são as necessárias observações sobre as conexões entre esses dois eventos. Destaco algumas. 
 

 
 
 
Em primeiro lugar, nada mais naturalizado como lógico e mesmo necessário, na cidade cuja história é celebrada e apresentada por uma baronesa branca, que no Bairro Terras do Barão seja instalada uma cerca e uma organização espacial segregadora dos corpos desviantes de um determinado padrão instituído como produtivo e confiável.
Segundo, é que trata-se de um bairro em que o padrão econômico é alto, onde vivem famílias em condições economicamente totalmente acima da média regional, mas está longe de ser local de moradia dos grandes senhores do capital. Portanto, se ilude quem lá mora e julga estar na mesma posição social que o barão que deu nome ao bairro ou a baronesa que inspira o tour. Importantíssimo destacar que não há consenso na comunidade local, entre os moradores e usuários do bairro, pela opção do cercamento e os consequentes constrangimentos e segregações a uma parcela da comunidade e visitantes. 
O que se pode observar é que a difusão e celebração das lógicas culturais do baronato impelem à fragmentação e impedem a construção de perspectivas culturais afetivas e agregadoras. Assim, também, se contrapõe  à organização de formas solidárias de sustentação material/econômica das atividades culturais, ou seja, as não pautadas unicamente pelas regras do lucro mercantil.
Terceiro, o tour e a cerca são práticas de uma mesma cadeia de relações sociais antidemocráticas, classistas, racistas e patriarcais. São resultantes de formas de organizar a vida, portanto a cultura, focadas no desmonte de espaços e serviços culturais de caráter público, sem finas lucrativos, sem exploração do trabalho e abertos à participação popular.
Explico.
Há na aŕea de museus da esfera pública municipal trabalhos de grande competência e acúmulo em pesquisas e práticas educativas na organização de tours, que apresentam a história da cidade em toda sua diversidade e complexidade. São trabalhos realizados por servidores públicos comprometidos com uma abordagem científica crítica da memória social. O que tem faltado é vontade política de valorizar e ampliar esses trabalhos. Melhor dizendo, o que tem sobrado é vontade política de destruí-los.
No tocante a cerca, um dos focos do cercamento é também um Centro Cultural, um local onde trabalhadores da cultura, servidores públicos e ativistas de coletivos artísticos, organizam atividades de reflexão e desconstrução das artes colonizadoras.
Ambos exemplos são práticas culturais não mercantis de produção e circulação de conhecimentos artísticos e científicos, portanto, que desnaturalizam processos referenciadores da mercantilização da vida tão caros aos que hoje ajudam a manter as relações sociais que continuam a extrair do trabalho de milhares a riqueza que sustenta e beneficia a classe que se perpetua no poder há séculos.
Em resumo, o tour e a cerca evidenciam as disputas pelas condições concretas materiais que definem quem tem direito e o acesso livre à cidade como um bem cultural coletivo.
Da terra à estética, das ruas às redes, dos territórios aos conhecimentos, o centro da disputa está na construção de poder social amplo, diverso e verdadeiramente participativo nos processos de decisão do que é e para quem é a cidade como bem cultural coletivo.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Dossiê - O Protagonismo Indígena e Museu: abordagens e metodologias

 

 

Essa semana tenho vivido um daqueles momentos em que as práticas coletivas que construo mostram suas forças e, portanto, me fazem ser forte por que junto somos. Partilho aqui a publicação que participo coletivamente com Juliana Siqueira e Aline Zanata, sempre com a troca afetiva e firmeza de princípios de Marília Xavier Cury e a sabedoria raiz de Dirce Jorge e toda a força do povo Kaingang. Viva o Museu Worikg! 


 

 

v. 10 n. 19 (2021): Dossiê Protagonismo indígena e museu: abordagens e metodologias

Ensinamentos decoloniais do Museu Worikg e suas curadoras Kaingang Juliana Maria de Siqueira, Aline Antunes Zanatta, Sônia Aparecida Fardin

https://periodicos.unb.br/index.php/museologia/article/view/34580 


Casa dos Saberes Ancestrais

 
 

Com muita alegria faço parte desta tarefa coletiva que tem como desejo criar pontes entre sujeitos produtores de conhecimentos comprometidos com a vida, em seu sentido mais profundo. São muitos os agradecimentos, não darei conta de todos. Em especial agradeço à TC Silva, Denise Xavier, Layla África, tod@s que constroem a Casa de Cultura Tainã, Rosa Pires Sales e Poliana Sales Estevam pela confiança na construção conjunta da formatação das entrevistas que organizei, como membro da Casa de Cultura Tainã, com Mestre Alceu e TC Silva. Nas pessoas de Wenceslau, Renata e Herivelto registro meu carinho à toda equipe da universidade que se esmerou em esgarçar as fronteiras e romper as amarradas da institucionalidade. 
Um abraço afetuoso à todas as parceiras e parceiros que dedicaram tempo, afeto, energias e recursos pessoais para vencer os limites da pandemia e superar as dificuldades diárias que estamos sofrendo neste momento tão duro de isolamento e exercitar a resistência coletiva.
Com muita felicidade, convido todas e todos a se apropriar deste trabalho e discutir, debater, acrescentar e somar outros olhares. Enfim, dar seguimento ao que nesta publicação é o foco: agregar forças, acreditar na vida e na capacidade da nossa gente de resistir para realizar o novo e, junt@s, VENCER e construir um mundo mais do nosso jeito. 
 
Acesso todo o livro em:
 
 

 

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Thomaz Perina, centenário de um grande artista e excepcional ser humano

 


Thomaz Perina, em seu ateliê - 2009.Foto de Sônia Ap. Fardin
 

Essa semana é aniversário de uma pessoa que respeito e admiro, um amigo que já se foi faz alguns anos, sempre o recordo nessa data. Este ano em especial, pois marca o centenário de seu nascimento. Thomaz Perina, viveu e atuou como artista em diversas áreas da cultura visual, destacando-se como pintor. Um grande artista, um excepcional ser humano e uma referência cultural importante que tem sua origem social vinculada à memória da classe trabalhadora em Campinas. Nasceu em 23 de maio de 1921 e faleceu em 28 de novembro de 2009, na cidade de Campinas, São Paulo. Embora algumas publicações apresentem 1920 como o ano de nascimento o correto é 1921. Também há divergências em algumas publicações que indicam o dia 25 de maio e outras o dia 23, sendo este último o indicado por ele como o correto.

Era filho dos imigrantes italianos Amilcare Perina, originário de Roverbella, província de Mântova, e Angelina Viduani, nascida em Marchiano, província de Arezzo. Amilcare e Angelina chegaram ao Brasil em 1894 e foram trabalhar na lavoura de café na região de Mogi Guaçu (SP), onde se conheceram e, em 1907, se casaram, onde também nasceram os primeiros filhos. Anos depois, mudaram para Campinas, cidade em que nasceram os caçulas e gêmeos, Thomaz e Virgínia. Em meados da década de 1920, a família passou a morar na Vila Industrial, em uma casa modesta situada na rua Carlos de Campos. O pai do artista trabalhou por décadas na empresa de ferragens McHardy, e nas horas de folga, tocava pistão na Banda Ítalo Campineira e levava a família para participar das festas e cerimônias da igreja e brincar no carnaval de rua. Em 1928, Thomaz Perina iniciou o curso primário na Escola Paroquial São José, que ficava nas dependências da Capela de São Roque, na Vila Industrial.

Thomaz Perina atuou ininterruptamente como artista plástico entre 1945 e 2009, conquistou importantes prêmios, em salões e mostras em várias cidades brasileiras. Sempre morando e trabalhando na casa-ateliê da Vila Industrial, sua imagem esteve ligada à própria imagem da Vila. Nesta Vila, tornou-se uma das mais conhecidas e respeitadas personalidade das artes visuais e da vida cultural campineira, na segunda metade do século XX. Foi protagonista em vários grupos culturais da cidade, além de colaborar com instituições públicas no campo das artes visuais, da memória e da produção cultural. Tudo isso resultado de muito trabalho e pesquisa. Sua produção artística é vasta, suas criações expressam a capacidade de extrair da experiência prática a radicalidade dos conceitos e de expressá-los artisticamente com uma emoção inquietante, tanto nas obras acadêmicas como nas abstratas. Mas, não vou me ater aqui à grandeza e a extensão de sua trajetória artística, pois não é possível apresentá-las devidamente nesse breve espaço.

Hoje quero falar um pouco da grande figura humana que conheci. Fui apresentada a ele no final dos anos 1990, por uma amiga em comum, Dayz Peixoto, que já havia pesquisado e documentado sua consagração como artista. Nossa amizade se consolidou durante o período que dirigi o Departamento de Memória e Turismo, especialmente por ocasião do Projeto Artista de Sempre realizado pela equipe do MACC (2002/2004) e também quando colaborei com Dayz na finalização da produção de um ensaio biográfico sobre ele (2005). Sou grata a Dayz por ter me apresentado ao artista, por ter trabalhado com ela na produção da publicação do ensaio de sua autoria, assim como aos familiares de Thomaz Perina que criaram o Instituto Thomaz Perina com o qual tive a alegria de colaborar de 2007 a 2010 em várias ações, inclusive em um video documentário (citado abaixo).

Nestes trabalhos, principalmente os realizados juntamente com Perina, tive um profundo aprendizado sobre a história das artes em Campinas. Também, em especial, sobre as contradições de uma sociedade que celebra e mitifica criadores de obras de artes, mas apaga os processos sociais e as histórias reais que envolvem seus realizadores.

Não é exagero afirmar que uma das principais marcas da atuação de Thomaz Perina foi a sua convicção da presença da potencialidade artística em todos os seres humanos e em todas as práticas criativas. Assim, ele não pactuava com hierarquias de saberes e, principalmente, com nenhum tipo de preconceito. Com esta convicção, enfrentou os limites da faceta meritocrática da sociedade que não reconhece os saberes dos oriundos da classe trabalhadora e, a seu modo, encarrou as contradições de uma cidade cheia de barreiras sociais. Com sua capacidade de trabalho e sensibilidade humana soube construir relações solidárias, profissionais e familiares, e um significativo círculo de amigos e parceiros. Seu caráter e talento, forjados em espaços coletivos dedicados às técnicas e experimentações criativas, possibilitaram seu acesso à diversas formas de atuação profissional no campo das artes; o que garantiu uma sobrevivência material singela, a inserção de suas obras em instituições públicas e coleções particulares e, também, a realização de ações de memória para registrar e celebrar sua trajetória e a de muitos de seus parceiros. Dentre estas ações, merecem registro especial, um ensaio biográfico, a documentação em vídeo de seu ateliê, a organização de seu acervo em coleções, a criação de uma instituição para preservar e para dar acesso as suas obras e uma tese de doutorado (citadas ao final).

Por tudo isso, em Campinas, Thomaz Perina tem uma importância central na memória social do campo das artes visuais. O que destaco é que Perina viveu e atuou no período em que os artistas e seus espaços de viver e criar passaram a ser alvos de uma significativa produção de documentação e exposição midiática. Neste contexto, Thomaz Perina, como os grandes artistas de seu tempo, soube encarnar a imagem mítica do artista, articular uma trajetória pública e emular um projeto de memória, sem jamais negar suas origens. Seu ateliê na Vila era, para muitos, um local de visitação e busca de orientação. Assim, sem dúvida, foi uma grande referência para toda uma geração de artistas visuais. Com grande empenho trabalhou e recebeu amigos até pouco antes de falecer. Foi uma das pessoas públicas mais gentis e generosas que conheci, absolutamente afetuoso e aberto ao diálogo, sem nunca esquecer de exercer a autoestima necessária para não se deixar abater pelas adversidades. Assim como, também, não se deixar iludir pelas vaidades das celebrações efêmeras.

Para homenageá-lo eu poderia falar muito mais de sua trajetória como artista e como pessoa pública, que são temas que estudei. Mas, como disse, hoje quero lembrar do ser humano que tive a oportunidade de conviver em muitos momentos de alegrias, entusiasmos, celebrações, debates, inquietações, incertezas e esperanças. Enfim, celebrá-lo como uma pessoa muito especial e querida, para mim e para muita gente. Hoje quero reviver os momentos de intensos diálogos nos jardins da casa, nos dias de trabalhos em seu ateliê, nas muitas conversas partilhando a sopa do final da tarde na cozinha da casa, falando de músicas, filmes e das noticias do dia.

Perina, caro amigo, sei que há muito o que dizer a seu respeito neste seu centenário, mas, singelamente, quero lembrar de você brincando e cantarolando Piazzolla, sempre com uma mensagem singular ao usar poucas palavras para dizer muito.


Sônia Aparecida Fardin


Trabalhos citados:

CASSOLI, Camilo. Eu quero o mínimo pra falar – Trajetórias de Thomaz Perina: documentário. Direção: Camilo Cassoli. Pesquisa: Sônia Aparecida Fardin. Produção: Timbro Filmes e Instituto Thomaz Perina. Produção executiva: Rodrigo Aguiar. Montagem: Camilo Cassoli e Rodrigo Aguiar, Gravado em 2007 e editado em 2009. (29 min), son. color. Apoio. CPFL.

FARDIN, Sônia Aparecida. Escrita de si, escrita do outro: os procedimentos do artista Thomaz Perina em seu livro-arquivo e sua casa-ateliê. Unicamp- IA, Campinas/SP 2016. Tese de doutorado. Orientadora Profa. Dra. Iara Lis Franco Schiavinatto.

FONSECA, Dayz Peixoto e SILVA, José Armando Pereira da. Thomaz Perina: pintura e poética. Campinas: Pontes, 2005.

FONSECA, Dayz Peixoto. Grupo Vanguarda (1958-1966). Museu da Imagem e do Som de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, 1981.

FONSECA, Dayz Peixoto. Sem título, 16 mm, 20 min, 1979

 

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