sexta-feira, 28 de maio de 2021

Thomaz Perina, centenário de um grande artista e excepcional ser humano

 


Thomaz Perina, em seu ateliê - 2009.Foto de Sônia Ap. Fardin
 

Essa semana é aniversário de uma pessoa que respeito e admiro, um amigo que já se foi faz alguns anos, sempre o recordo nessa data. Este ano em especial, pois marca o centenário de seu nascimento. Thomaz Perina, viveu e atuou como artista em diversas áreas da cultura visual, destacando-se como pintor. Um grande artista, um excepcional ser humano e uma referência cultural importante que tem sua origem social vinculada à memória da classe trabalhadora em Campinas. Nasceu em 23 de maio de 1921 e faleceu em 28 de novembro de 2009, na cidade de Campinas, São Paulo. Embora algumas publicações apresentem 1920 como o ano de nascimento o correto é 1921. Também há divergências em algumas publicações que indicam o dia 25 de maio e outras o dia 23, sendo este último o indicado por ele como o correto.

Era filho dos imigrantes italianos Amilcare Perina, originário de Roverbella, província de Mântova, e Angelina Viduani, nascida em Marchiano, província de Arezzo. Amilcare e Angelina chegaram ao Brasil em 1894 e foram trabalhar na lavoura de café na região de Mogi Guaçu (SP), onde se conheceram e, em 1907, se casaram, onde também nasceram os primeiros filhos. Anos depois, mudaram para Campinas, cidade em que nasceram os caçulas e gêmeos, Thomaz e Virgínia. Em meados da década de 1920, a família passou a morar na Vila Industrial, em uma casa modesta situada na rua Carlos de Campos. O pai do artista trabalhou por décadas na empresa de ferragens McHardy, e nas horas de folga, tocava pistão na Banda Ítalo Campineira e levava a família para participar das festas e cerimônias da igreja e brincar no carnaval de rua. Em 1928, Thomaz Perina iniciou o curso primário na Escola Paroquial São José, que ficava nas dependências da Capela de São Roque, na Vila Industrial.

Thomaz Perina atuou ininterruptamente como artista plástico entre 1945 e 2009, conquistou importantes prêmios, em salões e mostras em várias cidades brasileiras. Sempre morando e trabalhando na casa-ateliê da Vila Industrial, sua imagem esteve ligada à própria imagem da Vila. Nesta Vila, tornou-se uma das mais conhecidas e respeitadas personalidade das artes visuais e da vida cultural campineira, na segunda metade do século XX. Foi protagonista em vários grupos culturais da cidade, além de colaborar com instituições públicas no campo das artes visuais, da memória e da produção cultural. Tudo isso resultado de muito trabalho e pesquisa. Sua produção artística é vasta, suas criações expressam a capacidade de extrair da experiência prática a radicalidade dos conceitos e de expressá-los artisticamente com uma emoção inquietante, tanto nas obras acadêmicas como nas abstratas. Mas, não vou me ater aqui à grandeza e a extensão de sua trajetória artística, pois não é possível apresentá-las devidamente nesse breve espaço.

Hoje quero falar um pouco da grande figura humana que conheci. Fui apresentada a ele no final dos anos 1990, por uma amiga em comum, Dayz Peixoto, que já havia pesquisado e documentado sua consagração como artista. Nossa amizade se consolidou durante o período que dirigi o Departamento de Memória e Turismo, especialmente por ocasião do Projeto Artista de Sempre realizado pela equipe do MACC (2002/2004) e também quando colaborei com Dayz na finalização da produção de um ensaio biográfico sobre ele (2005). Sou grata a Dayz por ter me apresentado ao artista, por ter trabalhado com ela na produção da publicação do ensaio de sua autoria, assim como aos familiares de Thomaz Perina que criaram o Instituto Thomaz Perina com o qual tive a alegria de colaborar de 2007 a 2010 em várias ações, inclusive em um video documentário (citado abaixo).

Nestes trabalhos, principalmente os realizados juntamente com Perina, tive um profundo aprendizado sobre a história das artes em Campinas. Também, em especial, sobre as contradições de uma sociedade que celebra e mitifica criadores de obras de artes, mas apaga os processos sociais e as histórias reais que envolvem seus realizadores.

Não é exagero afirmar que uma das principais marcas da atuação de Thomaz Perina foi a sua convicção da presença da potencialidade artística em todos os seres humanos e em todas as práticas criativas. Assim, ele não pactuava com hierarquias de saberes e, principalmente, com nenhum tipo de preconceito. Com esta convicção, enfrentou os limites da faceta meritocrática da sociedade que não reconhece os saberes dos oriundos da classe trabalhadora e, a seu modo, encarrou as contradições de uma cidade cheia de barreiras sociais. Com sua capacidade de trabalho e sensibilidade humana soube construir relações solidárias, profissionais e familiares, e um significativo círculo de amigos e parceiros. Seu caráter e talento, forjados em espaços coletivos dedicados às técnicas e experimentações criativas, possibilitaram seu acesso à diversas formas de atuação profissional no campo das artes; o que garantiu uma sobrevivência material singela, a inserção de suas obras em instituições públicas e coleções particulares e, também, a realização de ações de memória para registrar e celebrar sua trajetória e a de muitos de seus parceiros. Dentre estas ações, merecem registro especial, um ensaio biográfico, a documentação em vídeo de seu ateliê, a organização de seu acervo em coleções, a criação de uma instituição para preservar e para dar acesso as suas obras e uma tese de doutorado (citadas ao final).

Por tudo isso, em Campinas, Thomaz Perina tem uma importância central na memória social do campo das artes visuais. O que destaco é que Perina viveu e atuou no período em que os artistas e seus espaços de viver e criar passaram a ser alvos de uma significativa produção de documentação e exposição midiática. Neste contexto, Thomaz Perina, como os grandes artistas de seu tempo, soube encarnar a imagem mítica do artista, articular uma trajetória pública e emular um projeto de memória, sem jamais negar suas origens. Seu ateliê na Vila era, para muitos, um local de visitação e busca de orientação. Assim, sem dúvida, foi uma grande referência para toda uma geração de artistas visuais. Com grande empenho trabalhou e recebeu amigos até pouco antes de falecer. Foi uma das pessoas públicas mais gentis e generosas que conheci, absolutamente afetuoso e aberto ao diálogo, sem nunca esquecer de exercer a autoestima necessária para não se deixar abater pelas adversidades. Assim como, também, não se deixar iludir pelas vaidades das celebrações efêmeras.

Para homenageá-lo eu poderia falar muito mais de sua trajetória como artista e como pessoa pública, que são temas que estudei. Mas, como disse, hoje quero lembrar do ser humano que tive a oportunidade de conviver em muitos momentos de alegrias, entusiasmos, celebrações, debates, inquietações, incertezas e esperanças. Enfim, celebrá-lo como uma pessoa muito especial e querida, para mim e para muita gente. Hoje quero reviver os momentos de intensos diálogos nos jardins da casa, nos dias de trabalhos em seu ateliê, nas muitas conversas partilhando a sopa do final da tarde na cozinha da casa, falando de músicas, filmes e das noticias do dia.

Perina, caro amigo, sei que há muito o que dizer a seu respeito neste seu centenário, mas, singelamente, quero lembrar de você brincando e cantarolando Piazzolla, sempre com uma mensagem singular ao usar poucas palavras para dizer muito.


Sônia Aparecida Fardin


Trabalhos citados:

CASSOLI, Camilo. Eu quero o mínimo pra falar – Trajetórias de Thomaz Perina: documentário. Direção: Camilo Cassoli. Pesquisa: Sônia Aparecida Fardin. Produção: Timbro Filmes e Instituto Thomaz Perina. Produção executiva: Rodrigo Aguiar. Montagem: Camilo Cassoli e Rodrigo Aguiar, Gravado em 2007 e editado em 2009. (29 min), son. color. Apoio. CPFL.

FARDIN, Sônia Aparecida. Escrita de si, escrita do outro: os procedimentos do artista Thomaz Perina em seu livro-arquivo e sua casa-ateliê. Unicamp- IA, Campinas/SP 2016. Tese de doutorado. Orientadora Profa. Dra. Iara Lis Franco Schiavinatto.

FONSECA, Dayz Peixoto e SILVA, José Armando Pereira da. Thomaz Perina: pintura e poética. Campinas: Pontes, 2005.

FONSECA, Dayz Peixoto. Grupo Vanguarda (1958-1966). Museu da Imagem e do Som de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal de Campinas, 1981.

FONSECA, Dayz Peixoto. Sem título, 16 mm, 20 min, 1979

 

Publicado também em Carta Campinas

 

segunda-feira, 24 de maio de 2021

Você conheço o Semba?

 


 
 

 


 
Penso que desfile de Carnaval é um tipo de museu brincante produzido coletivamente por sujeitos que expressam criativamente memórias e sonhos sob a forma de músicas, danças, figurinos e múltiplas artes visuais. Um cortejo festivo, ato máximo de um largo processo de trabalho, somatória de corpos-territórios criadores e criaturas da arte, da história e do desejo de brilho. Como já disse o poeta russo e um nosso baiano tropicalizou: Gente é pra brilhar, não para morrer de fome. 
Por isso, nesses tempos pandêmicos, sem desfiles, faço um convite para uma visita ao site do artista visual e sambista campineiro Aluízio Jeremias http://aluizio.taina.org.br/sobre-aluizio/
As obras pictóricas de Jeremias, iluminam parte significativa dos corpos-memórias-territórios da cultura carnavalesca da primeira metade do século XX em Campinas, destacadamente de matriz africana. São criações especialmente produzidas para o Projeto Semba, organizado em 2012 pela Casa de Cultura Tainã, com curadoria de TC Silva.
O Projeto Semba foi uma ação de re-existência da cultura negra, pela recriação pictórica de personagens, espaços e práticas culturais de grupos sociais oprimidos pela lógica cultural capitalista que, nos anos 1950/1970,  por meio da reurbanização orquestrada pelo capital imobiliário causou a desestruturação de territórios e comunidades tradicionais afrolatinoamericanas.
Nesse processo, parte das memórias sonoras e visuais do samba e do carnaval popular foram desarticuladas e uma face musical embranquecida e europeizada foi privilegiada nas publicações oficiais da cidade.
O trabalho artístico de Jeremias tem como matriz suas memórias de menino encantado com a cultura do povo negro, que pulsava nos casebres e cortiços do baixo Cambuí, antes da gentrificação. Seus quados iluminam faces da classe trabalhadora que construiu as modernidades da cidade capital do café, mas não teve direito de usufruí-las. Jeremias nos ensina, com suas cenas de desfile-museu-brincante, parte da história dos negros da cidade.
O artista Jeremias, também um corpo-memória-território-vivo, em suas pinturas e em muitos de seus sambas deu carnatura aos territórios, às faces, à gestualidade e à sonoridade de uma parcela da população que não era reconhecida como sujeito da memória e como parte do mapa cultural da cidade, em especial nos campos das artes visuais e dos museus de arte.
Sem dúvida o Projeto Semba, iniciativa da Casa de Cultura Tainã, foi uma significativa ação contra-hegemônicas no campo das artes plásticas e da museologia social em Campinas, pois viabilizou a realização dessas imagens e as levou para exposição no Museu de Arte Contemporânea de Campinas na Casa de Cultura Tainã, na Casa de Cultura Fazenda Roseiras e no Museu de Imagem e e vídeos sobre o artista no Som de Campinas. As ações do Projeto estão documentadas em https://tainamemoria.taina.net.br/.../dom.../projeto-semba ,http://aluizio.taina.org.br/
Fica a dica, caia na folia das redes da resistência nesse Carnaval.
 
Obs: Texto escrito em fevereiro de 2021.

Produções audiovisuais – autoria, coautoria e pesquisa




Acesse meus vídeos


Nair Benedicto - InQUIETAmente

Documentário em vídeo.

Duração: 15 min. N-Imagens, Brasil, 2020.

Roteiro de Nair Benedicto

Direção e edição: BENEDICTO, Nair; FARDIN, Sônia A.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=f3sOBJI2uoE

 

Nair Benedicto - Depoimento para o Projeto Arte e Diálogo na Quarentena

Documentário em vídeo.

Duração: 08 min. N-Imagens, Brasil, 2020.

Roteiro de Nair Benedicto

Direção e edição: BENEDICTO, Nair; FARDIN, Sônia Ap. Fardin.

Local da estreia: Museu Nacional de Belas Artes, RJ.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=MbO2XedjuY

https://www.facebook.com/watch/?v=775276413208319

 

MEMÓRIA VIVA KAINGANG - Kujã Dirce Jorge - Museu Worikg

Documentário em vídeo.

Duração: 29 min. , Brasil, 2019.

Direção e edição: FARDIN, S. A.

Disponível em: https://youtu.be/xq_DA8aUtDQ




MUSEU WORIKG - ENCONTRO DA REDE DE MEMÓRIA E MUSEOLOGIA SOCIAL/SP.

Documentário em vídeo.

Duração: 29 min. , Brasil, 2020.

Direção e edição: FARDIN, S. A.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=EwoyVIeh0KU



Ciranda da Memória – museologia social

Documentário em vídeo. Duração: 29 min. Museu da Imagem e do Som de

Campinas, Brasil, 2016.

Direção e edição: FARDIN, S. A.; SIQUEIRA, J. M. (coautoria)

Local da estreia: Mostra Luta - Museu da Imagem e do Som de Campinas.

 


 

João Zinclar, a imagem militante

Documentário em vídeo. Duração: 29 min Campinas.Museu da Imagem e do Som

de Campinas, Brasil, 2013.

Direção e Pesquisa: FARDIN, S. A.; BUONICORE, A.; TOLEDO, O. A.; RICHTER, L.; SILVA,

M. (coautoria)

Local da estreia: Museu da Imagem e do Som de Campinas.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=KYD95zhe1f0

 


 

Toninho abrindo as portas do Palácio

Documentário em vídeo. Duração: 6 min. Museu da Imagem e do Som de

Campinas. Campinas, Brasil, 2013.

Direção e edição: FARDIN, S. A.

Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=T14q9CAlzRo



Eu quero o mínimo pra falar - trajetória de Thomaz Perina,

Documentário em vídeo. Duração 29 min. CPFL Cultura: Campinas, Brasil,

2009.

Direção: CASSOLI, C.

Pesquisa: FARDIN, S. A

Produtora: Timbro Comunicação e Instituto Thomaz Perina.

Disponível em: https://vimeo.com/138866441


Exposições - curadoria e pesquisa


Evento: Autodeclaração, Samuel Pérsio

Curadoria e Pesquisa: FARDIN, S.

Instituição promotora: Estação Cultura - Campinas.

Tipo de evento: Exposição de artes visuais

Data: 19 de setembro a 12 de novembro de 2018.

Local: Estação cultura Campinas

Cidade do evento: Campinas, Brasil

Ver mais em: http://samuelpersio.art.br/


Evento: João Zinclar, a imagem militante

Curadoria e Pesquisa: FARDIN, S. A.; BUONICORE, A (coautoria)

Instituição promotora: Museu da Imagem e do Som de Campinas.

Tipo de evento: Exposição fotográfica

Data: 15 de outubro de 2013.

Local: Museu da Imagem e do Som de Campinas.

Cidade do evento: Campinas, Brasil


Evento: Retratos de Perina: olhares sob a forma de arte

Curadoria e Pesquisa: FARDIN, S. A. (autoria)

Instituição promotora: Instituto Thomaz Perina

Tipo de evento: Exposição fotográfica

Data: março de 2010

Local: Instituto Thomaz Perina

Cidade do evento: Campinas, Brasil


Evento: Eu quero o mínimo pra falar - trajetória de Thomaz Perina

Curadoria e pesquisa: FARDIN, S. A. (autoria)

Instituição promotora: Instituto Thomaz Perina e CPFL Cultura

Tipo de evento: Exposição de artes visuais

Data: 06 de janeiro de2009

Local: CPFL Cultura

Cidade do evento: Campinas, Brasil

domingo, 23 de maio de 2021

Samuel de Freitas Pérsio

 

 


Samuel de Freitas Pérsio, 36 anos, filho de Maria Augusta de Freitas Pérsio e Marcílio Pérsio, nasceu em 11 de maio de 1982, em Araucária (Paraná).

Samuel é nome bíblico, carregado de projeções ancestrais. O sobrenome de Freitas, de origem materna, é lembrado por ele como legado de seu avô, João Batista de Freitas, “homem gentil, de origem negra, pedreiro e contador de histórias, sempre bem-humorado. Minha cabeça crespa e cabelo grosso vêm dele”. Pérsio é nome do ramo paterno, italianos trabalhadores do campo, “o lado mais sisudo da família […], mas meu pai, seu Marcílio, sempre foi o oposto disso, sempre muito generoso e gentil”.

Assinar seus trabalhos artísticos como Samuel de Freitas Pérsio, nome e sobrenome completos, foi uma decisão muito elaborada, uma afirmação consciente de quem lê as marcas, impressas em seu corpo e em sua memória, dos homens e mulheres de sua classe que, antes dele, enfrentaram os desafios de seu tempo.

Até os 5 anos, Samuel viveu em Araucária, no interior do Paraná, em uma vila de trabalhadores da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), onde seu pai foi trabalhar como ferroviário. Sua família, de origem camponesa, migrou para a cidade em busca de sobrevivência, assim como muitas outras vitimadas pelo êxodo rural intensificado pelas medidas econômicas do governo ditatorial dos anos 1970. Na cidade, o trabalho de seu pai dividia-se entre a ferrovia e a construção civil.

Na década de 1980, a imposição capitalista levou à mudança do modelo de transporte e ao declínio das ferrovias, substituídas pelas rodovias. A família de Freitas Pérsio foi morar em um núcleo habitacional.

O acirramento das políticas econômicas de mecanização do campo e concentração de indústrias na região Sudeste levou muitas famílias da classe trabalhadora rural e urbana a migrar das pequenas cidades do interior do Paraná e de São Paulo para centros urbanos como Campinas e região. Assim, em 1990, os de Freitas Pérsio chegaram em Valinhos (São Paulo), onde Marcílio passou a trabalhar como pedreiro.

Nesse contexto sociocultural, em uma região de adensamento da classe trabalhadora, Samuel, o quarto e único filho homem, cresceu, fez o ensino básico e aprendeu com o paí o ofício de pedreiro; profissão que exerce desde os quinze anos.

Na adolescência, iniciou-se também no aprendizado de técnicas e expressões artísticas, quando com 16 anos, em 1998, estudou desenho artístico com o professor Sebastião Moreira na Casa de Cultura de Valinhos. Foi então do desenho à palavra ou vice-versa, pois, “motivado pelos causos do meu avô materno, tomei gosto pela criação de personagens e histórias”. Porém o rígido cotidiano da vida de jovem operário da construção civil e as barreiras sociais impuseram obstáculos entre os ofícios de pedreiro e os da criação artística.

Ainda assim, desde esse primeiro contato formal com o fazer artístico, no final da década de 1990, Samuel nunca deixou de desenhar e escrever. Nos fins de semana, pela manhã antes de sair para o trabalho ou, por vezes, em meio ao canteiro de obras, vários cadernos e folhas soltas foram preenchidas com personagens, poemas e histórias.

De forma ininterrupta, desde a adolescência até a vida adulta, o exercício do imaginar e materializar formas e emoções sobre uma superfície plana vem ocupando os intervalos do tempo de Samuel vendido à construção civil.

Criar obras pictóricas em tela a partir de seus desenhos era um desejo latente, porém, até recentemente, não havia ousado obter a autopermissão; pois, como explicita em seu poema “Autodeclaração”: na sociedade que fragmenta e hierarquiza ofícios e saberes, criar e pintar em telas emolduradas é capacidade apartada de quem ganha a vida criando e pintando paredes.

Mas, nos últimos três anos, a produção de pinturas e esculturas foi se instalando entre suas lidas diárias, tomando espaço em sua casa transmutada em uma oficina de arte.

Compreender o caminho que o levou a criar obras pictóricas e escultóricas é importante, pois essa autodeclaração de artista, feita por um dos de Freitas Pérsio, foi forjada na lida coletiva das tramas de saberes presentes nas práticas culturais e políticas da classe trabalhadora em grandes centros urbanos, como é a cidade de Campinas.

O poema “Autodeclaração”, escrito em março de 2017 em meio a intensa criação pictórica, traz a síntese do percurso de constituição dessa autopermissão de existir como um ser inteiro ou, ao menos, de buscar sê-lo.

Nessa busca, todos elementos artísticos, dos temas aos suportes, molduras e tintas, foram extraídos de seus conhecimentos e experimentações na construção civil. As tintas têm as mesmas bases das usadas em paredes e pisos, os suportes são extraídos de madeiras, tecidos, lonas e sacos de ráfia que embalam areia, pedras, cal e cimento.

As pinturas e esculturas aqui expostas, criadas entre 2016 e 2018, são autodeclaratórias da permissão de ser artista, grafada em versos, moldada em ferros e pigmentada em panos, lonas e sacos de cimento.

Em sua casa ateliê oficina, além das obras, desenhou, planejou e construiu todos os painéis e demais mobiliários expositivos para esta exposição, para a qual também concebeu e executou a iluminação e a distribuição espacial de cada peça.

Não é somente a soma de saberes e competências para imaginar, planejar e realizar tais fases da atuação criativa que demarca o caminho trilhado até sua autodeclaração de artista. A isso tudo, Samuel de Freitas Pérsio juntou o que trocou com outros que, como ele, em 2013, saíram às ruas em busca de espelho: gente trabalhadora que se jogou num mar de corpos que ansiava por sair do espaço contido entre a casa e o trabalho, para se encontrar e se reconhecer em outros rostos.

Assim foi seu mergulho nas manifestações e movimentos sociais. Assim tem sido a intensificação de troca de saberes e técnicas diversas de criação e expressão artística para encontrar sua própria voz. Como ele mesmo afirma: “desenhar, pintar, criar formas, é a minha fala”.

Essa busca por encontrar sua própria voz tornou-se ainda mais intensa nos últimos anos, quando os caminhos que trilhou em militâncias coletivas em midialivrismo e direitos humanos o fizeram consciente da urgência em desenvolver saberes e habilidades para colocá-los a serviço das frentes de luta contra todo tipo de opressão.

O encontro com outros trabalhadores artistas propiciou a Samuel conhecer e desenvolver seus ofícios. Assim, aprimorou-se em técnicas de iluminação cênica com o músico e produtor Daniel Dias, na Rede Usina Geradora de Cultura/ Escola Municipal de Cultura e Arte, em 2016/2017; desenvolveu-se na confecção e manipulação de bonecões com o mestre bonequeiro Sebastian Marques, na Oficina de Sonhos da Estação Cultura, em 2016/2017; fez-se aprendiz e parceiro na confecção, manipulação e interpretação teatral com bonecos Banraku do criador e diretor Jesus Seda, na Rede Usina Geradora de Cultura/ Escola Municipal de Cultura e Arte, em 2018.

Sua voz própria forjou-se também ao intensificar a participação junto com outros trabalhadores artistas na organização de mostras de audiovisuais, na militância midialivrista, na concepção e montagem de cenários, no planejamento e execução de montagem de equipamentos para captação, registro e transmissão de som e imagem com movimentos sociais que constroem o Mostra Luta, a Sala dos Toninhos, a Oficina Geradora e as ações públicas do Conselho de Direitos Humanos de Campinas e o Coletivo Socializando Saberes.

Não por acaso, as produções pictóricas e escultóricas reunidas nesta mostra dão a ver a explosão de suas “falas” autodeclaratórias entre 2016 e 2018.

A mostra Autodeclaração é uma seleção de obras que apresentam rostos, mãos e silhuetas de corpos que dá a ver que, entremeios a ser pedreiro e ser artista, Samuel trilhou caminhos que desmontam as falas daqueles que segregam formas de vida sob substantivos estanques.

Nessa caminhada, aos poucos foi ganhando forças para afirmar com voz própria que os ofícios de pedreiro e de artista, que a história de sua gente abarca, não são nem um, nem dois, mas Duos.

Duos, como dizem os dicionários, são sujeitos de iguais potências; portanto, ante a vida cindida pelo capital, afirmar-se Duo é subverter as disjuntivas dos recortes sociais demarcadores de papéis e destituidores dos conhecimentos ancestrais que encarnam toda criação humana.

Esse gesto não dá conta da totalidade das ancestralidades presente em cada gesto da produção da vida, mas oferece um caminho para vencer a lógica fragmentária da mercantilização da experiência humana.

Foi nesse caminho que, no corpo que carrega origens negras e rubras dos de Freitas Pérsio, Samuel percebeu a necessidade de declarar-se Duo, na carn

Foi nesse caminho que, no corpo que carrega origens negras e rubras dos de Freitas Pérsio, Samuel percebeu a necessidade de declarar-se Duo, na carne e na arte.

Sônia Aparecida Fardin

texto escrito para a Exposição Autodeclaração – setembro de 2018

 https://www.facebook.com/samuel.persio

https://cartacampinas.com.br/2018/09/x-autodeclaracao-reune-obras-do-artista-samuel-de-freitas-persio-na-estacao-cultura/ 


 

 

 

sexta-feira, 12 de março de 2021

 NÃO É IRONIA, É TRAGEDIA

Hoje faz um ano que entrei em quarentena.
Havia chegado do carnaval em Recife no dia 5/3, foi ótimo: muita muvuca, aglomeração e alegria. Fui ao ato do dia das mulheres no Largo Marielle Franco no dia 07/03, foi lindo; me organizava para ir ao um ato Fora Bolsonaro na Paulista no dia 14/03.
Nesse meio tempo, dia 12/03 foi muito triste, fui ao sepultamento de uma amigo, um dos mais competentes historiadores que conheci em Campinas, estava internado há meses tratando-se de um câncer. Grande perda. Foi nessa ocasião que abracei amigos pela última vez, até agora.
Ao sair do cemitério ouvi num dos grupos de ZAP o famoso áudio de um médico que rodou o Brasil alertando sobre o vírus desconhecido, informando que sabiam que o quadro era sério e muito grave. Havia verdade e temor em sua voz. Foi a primeira vez que me inteirei do assunto pandemia.
Recordo exatamente a sensação estranha vivida no caminho para casa: passei no banco, na farmácia, no supermercado e no posto de gasolina. Abasteci caixa de remédios, geladeira e tudo o mais que significava ter condições de passar três semanas em casa sozinha, até o perigo passar.
A cabeça tentando entender a abrupta mudança: dos esfregas das ruas pernambucanas para o total distanciamento social. Ilusoriamente avaliei: tenho muito o que fazer em casa, seguro esse onda. Veio que veio, a manifestação do dia 14/03 foi acertamento cancelada, a primeira de muitas.
Hoje, o tal áudio do médico que ouvi há um ano, que chegou a ser tachado de alarmista e inapropriado, está ainda mais atual.
Hoje, 12 de março de 2021, os fatos são aterrorizantes. Não são apenas áudios com previsões de um cientista.
Hoje, como há um ano fui ao mercado, a farmácia e ao posto de gasolina para cuidar de tudo o que me pode ser necessário para mim e minha mãe nos próximo quinze dias.
Ironia? Coincidência? Não, nem uma coisa nem outra.
Agora sabemos que não há solução em quinze dias, que se fizermos a coisa certa faremos lockdown, mas isso ainda não basta. As 270 mil mortes nos lembram que não basta, 40 milhões de desempregados nos lembram que não basta.
Sim, é urgente lutarmos para evitar os ciclos de mortes. Mas é indispensável lutarmos ainda mais para ampliar verdadeiramente a vida.
Esse repetição não é ironia, é tragédia.
Essa tragédia tem um nome: capitalismo.
Para começar a conter as mortes e ampliar a vida: FORA BOLSONARO, VACINA JÁ, MOBILIZAÇÃO CONSTANTE, ELEIÇÕES JUSTAS JÁ!

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

MORREU A SECRETARIA, VIVA A CULTURA!

Assisti no último domingo (03/05) o encontro virtual que debateu a Lei Emergencial para a Cultura, no âmbito federal, que visa criar condições de sobrevivência para trabalhadores culturais e dar sustentação aos espaços culturais durante a pandemia. Entre os relatos, alguns secretários estaduais e municipais elencaram medidas que já estão em realização para dar conta de conter a dramática situação econômica do segmento cultural.

Ou seja, quando há vontade política é possível sim para órgãos municipais e estaduais cumprirem seu papel social de salvaguardar postos de trabalho e apoiar a continuidade de processos culturais não abarcados pelo mercado.

Porém, Campinas segue na contramão dessas políticas. Cidade que é uma das maiores do Brasil, com uma história cultural reconhecida e celebrada em todos os setores da diversidade cultural, e que também tem um movimento social de cultura organizado e atuante em coletivos, agrupamentos, associações e um Fórum Municipal de Cultura, que tem procurado abarcar e representar essa diversidade.

Contudo, a cultura do abandono não é de agora, desde o início do governo Jonas que a cultura aqui está a míngua. A especialidade da Secretaria de Cultural aqui vem sendo promover factóides, dissimulações e engavetar a lei do Conselho Municipal.

Desde que os ataques mais violentos começaram, pós Golpe de 2016, vários coletivos vêm realizando tentativas de incidir sobre os gestores públicos de cultura da gestão Jonas Donizette, com atuações que oscilam entre momentos de conciliação e outros de endurecimento nas críticas. Porém, sem declarar, até então, a total inoperância da Secretaria de Cultura em todas as suas atribuições e competências em prol da Cultura Viva.

A Secretaria de Cultura, enquanto gestora das ações culturais, está decrépita faz muito tempo. Mesmo assim, estava sendo mantida viva como uma interlocutora por parte do segmento cultural. Essa sobrevida, somada a outros ardis, foi usada pela gestão Jonas Donizette como fôlego para seguir com seu projeto de desmonte e ataques aos serviços públicos e dos trabalhadores da cultura.

Contudo, diante da gravidade da atual situação e da absoluta inoperância dos órgãos municipais — não só os de cultura — parece que o tempo de acreditar em parcerias e editais acabou, assim como a ilusão da conciliação com esse governo destruidor dos serviços públicos.

Que assim seja, pois declarar falida, melhor dizendo, falecida a Secretaria sob a gestão de Jonas Donizete é necessário para fazer Viva a Cultura e lutarmos por um projeto de governo que não seja comprometido com a morte da Cultura.

Viva à Cultura.