Essa semana tenho vivido um daqueles momentos em que as práticas
coletivas que construo mostram suas forças e, portanto, me fazem ser
forte por que junto somos. Partilho aqui a publicação que participo
coletivamente com Juliana Siqueira e Aline Zanata, sempre com a troca
afetiva e firmeza de princípios de Marília Xavier Cury e a sabedoria
raiz de Dirce Jorge e toda a força do povo Kaingang. Viva o Museu
Worikg!
v. 10 n. 19 (2021): Dossiê Protagonismo indígena e museu: abordagens e
metodologias
Com muita alegria faço parte desta tarefa coletiva que tem como desejo criar pontes entre sujeitos produtores de conhecimentos comprometidos com a vida, em seu sentido mais profundo. São muitos os agradecimentos, não darei conta de todos. Em especial agradeço à TC Silva, Denise Xavier, Layla África, tod@s que constroem a Casa de Cultura Tainã, Rosa Pires Sales e Poliana Sales Estevam pela confiança na construção conjunta da formatação das entrevistas que organizei, como membro da Casa de Cultura Tainã, com Mestre Alceu e TC Silva. Nas pessoas de Wenceslau, Renata e Herivelto registro meu carinho à toda equipe da universidade que se esmerou em esgarçar as fronteiras e romper as amarradas da institucionalidade.
Um abraço afetuoso à todas as parceiras e parceiros que dedicaram tempo, afeto, energias e recursos pessoais para vencer os limites da pandemia e superar as dificuldades diárias que estamos sofrendo neste momento tão duro de isolamento e exercitar a resistência coletiva.
Com muita felicidade, convido todas e todos a se apropriar deste trabalho e discutir, debater, acrescentar e somar outros olhares. Enfim, dar seguimento ao que nesta publicação é o foco: agregar forças, acreditar na vida e na capacidade da nossa gente de resistir para realizar o novo e, junt@s, VENCER e construir um mundo mais do nosso jeito.
Thomaz Perina, em seu ateliê - 2009.Foto de Sônia Ap. Fardin
Essa
semana
é
aniversário
de uma
pessoa que respeito e admiro, um amigo
que já se foi faz alguns anos,sempre
o
recordo
nessa data. Este
ano
em especial, pois
marca
o centenário de seu nascimento. Thomaz
Perina,
viveu e atuou como artista em diversas áreas da cultura visual,
destacando-se como pintor. Umgrande
artista,um
excepcional
ser
humano
euma
referência
cultural
importante que
tem sua
origem socialvinculadaà
memória
da
classe trabalhadora em Campinas.
Nasceu
em 23 de maio de 1921 e faleceu em 28 de novembro de 2009, na cidade
de Campinas, São Paulo. Embora algumas publicações apresentem 1920
como o ano de nascimento o correto é 1921. Também há divergências
em algumas publicações que indicam o dia 25 de maio e outras o dia
23, sendo este último o indicado por ele como o correto.
Era
filho dos imigrantes italianos Amilcare Perina, originário de
Roverbella, província de Mântova, e Angelina Viduani, nascida em
Marchiano, província de Arezzo. Amilcare e Angelina chegaram ao
Brasil em 1894 e foram trabalhar na lavoura de café na região de
Mogi Guaçu (SP), onde se conheceram e, em 1907, se casaram, onde
também nasceram os primeiros filhos. Anos depois, mudaram para
Campinas, cidade em que nasceram os caçulas e gêmeos, Thomaz e
Virgínia. Em meados da década de 1920, a família passou a morar na
Vila Industrial, em uma casa modesta situada na rua Carlos de Campos.
O pai do artista trabalhou por décadas na empresa de ferragens
McHardy, e nas horas de folga, tocava pistão na Banda Ítalo
Campineira e levava a família para participar das festas e
cerimônias da igreja e brincar no carnaval de rua. Em 1928, Thomaz
Perina iniciou o curso primário na Escola Paroquial São José, que
ficava nas dependências da Capela de São Roque, na Vila Industrial.
Thomaz
Perina atuou ininterruptamente como
artista plástico entre 1945 e 2009, conquistou importantes prêmios,
em salões e mostras em várias cidades brasileiras. Sempre morando
e trabalhando na casa-ateliê da Vila Industrial, sua imagem esteve
ligada à própria imagem da Vila. Nesta Vila, tornou-se uma das mais
conhecidas e respeitadas personalidade das artes visuais e da vida
cultural campineira, na segunda metade do século XX. Foi
protagonista em vários grupos culturais da cidade, além de
colaborar com instituições públicas no campo das artes visuais, da
memória e da produção cultural. Tudo
isso
resultado de
muito trabalho e pesquisa.
Sua
produção artística
é vasta,suas
criações expressam a capacidade de extrair da experiência prática
a radicalidade dos conceitos e de expressá-los artisticamente com
uma emoçãoinquietante,
tanto nas obras acadêmicas como nas abstratas.
Mas,
não
vou me ater
aqui à
grandeza
e a extensão de sua trajetória
artística,
pois
não
é possível apresentá-lasdevidamente
nesse
breve espaço.
Hoje
quero falar um pouco da grande figura humana que conheci. Fui
apresentada a ele no final dos anos 1990, por uma amiga em comum,
Dayz Peixoto, que já havia pesquisado e documentado sua consagração
como artista. Nossa amizade se consolidou durante o período que
dirigi o Departamento de Memória e Turismo, especialmente por
ocasião do Projeto Artista de Sempre realizado pela equipe do MACC
(2002/2004) e também quando colaborei com Dayz na finalização da
produção de um ensaio biográfico sobre ele (2005). Sou grata a
Dayz por ter me apresentado ao artista, por ter trabalhado com ela na
produção da publicação do ensaio de sua autoria, assim como aos
familiares de Thomaz Perina que criaram o Instituto Thomaz Perina com
o qual tive a alegria de colaborar de 2007 a 2010 em várias ações,
inclusive em um video documentário (citado abaixo).
Nestes
trabalhos,
principalmente os realizados juntamente com Perina,tive
um profundo aprendizado sobre a
história das artes em Campinas. Também,
em
especial,
sobre as
contradiçõesdeuma
sociedade
que celebra e mitifica criadores
de obras de
artes,
mas apaga os processos sociais e as histórias
reais que envolvem seus
realizadores.
Não
é exagero afirmar que uma das principais marcas da atuação de
Thomaz
Perina
foi a sua convicção da presença da potencialidade artística em
todos os seres humanos e em todas as práticas criativas. Assim, ele
não
pactuava com hierarquias
de
saberes e,
principalmente, com
nenhum tipo
de preconceito. Com
esta convicção, enfrentouos
limites
da facetameritocrática
da
sociedade
que não reconhece
os saberes dos
oriundos da classe trabalhadora e,
a seu modo,encarrou
ascontradiçõesde
uma cidade cheia de barreiras
sociais.Com
sua capacidade de
trabalho e sensibilidade humanasoube
construirrelações
solidárias,profissionais
e familiares,
e
um significativo
círculo
de amigos e
parceiros.
Seu
caráter e talento,
forjados
em
espaçoscoletivos
dedicados às
técnicas e experimentações
criativas, possibilitaram
seuacesso
à
diversas formas de atuação
profissional
no
campo das
artes;
o que garantiu umasobrevivência
material singela,
a inserção de suas obras em instituições
públicas
e coleções particulares e, também,
arealização
de
ações
de
memória para
registrar e celebrar sua trajetória
e a de muitos de seus parceiros.
Dentre
estas ações,merecem
registro especial,
um ensaio biográfico, a documentação em vídeo de seu ateliê, a
organização de seu acervo em coleções,
a
criação de uma instituição para preservar e para dar acesso as
suas obras e
uma tese de doutorado(citadas
ao final).
Por
tudo isso, em
Campinas, Thomaz Perina tem uma
importância central na memória social do campo das artes visuais. O
que destaco é que Perina
viveu e atuou no período em que os artistas e seus espaços de viver
e criar passaram a ser alvos de uma significativa produção de
documentação e exposição midiática.Neste
contexto,Thomaz
Perina, como
os grandes artistas de seu tempo, soube
encarnar a imagem mítica do artista,
articular uma
trajetória pública
e emular um
projeto de memória,
sem
jamais
negarsuas
origens.
Seu
ateliê na
Vila era,
para muitos,
um local de visitação e busca de orientação. Assim,
sem
dúvida, foi
uma
grande
referência para
toda uma geração de
artistas
visuais.Com
grande empenhotrabalhou
e recebeu amigosaté
pouco antes de falecer.
Foi
uma das pessoas
públicas
mais gentis e generosas que conheci, absolutamente afetuoso e aberto
ao diálogo, sem nunca esquecer de exercer a autoestima necessária
para não se deixar abater pelas adversidades. Assim como, também,
não se deixar iludir pelas vaidades das celebrações efêmeras.
Para
homenageá-lo eu poderia falar muito mais de sua trajetória como
artista e como pessoa pública, que são temas que estudei. Mas, como
disse, hoje quero lembrar do ser humano que tive a oportunidade de
conviver em muitos momentos de alegrias, entusiasmos, celebrações,
debates, inquietações, incertezas e esperanças. Enfim, celebrá-lo
como uma pessoa muito especial e querida, para mim e para muita
gente. Hoje quero reviver os momentos de intensos diálogos nos
jardins da casa, nos dias de trabalhos em seu ateliê, nas muitas
conversas partilhando a sopa do final da tarde na cozinha da casa,
falando de músicas, filmes e das noticias do dia.
Perina,
caro
amigo, sei que há muito o que dizer a seu respeito
neste
seu centenário,mas,
singelamente,
quero
lembrar
de você brincando
e cantarolando
Piazzolla,
semprecom
uma mensagem singular
ao usar
poucas
palavras para dizer muito.
Sônia
Aparecida Fardin
Trabalhos
citados:
CASSOLI,
Camilo. Eu quero o mínimo pra falar – Trajetórias de
Thomaz Perina: documentário.
Direção: Camilo Cassoli.
Pesquisa: Sônia Aparecida
Fardin. Produção: Timbro Filmes e Instituto Thomaz
Perina. Produção
executiva: Rodrigo Aguiar. Montagem: Camilo Cassoli e Rodrigo Aguiar,Gravado em 2007 e editado
em 2009.
(29 min), son. color. Apoio.
CPFL.
FARDIN,
Sônia Aparecida. Escrita
de si, escrita do outro: os procedimentos do artista Thomaz Perina em
seu livro-arquivo e sua casa-ateliê. Unicamp- IA, Campinas/SP
2016. Tese de doutorado.
Orientadora Profa.
Dra. Iara Lis Franco Schiavinatto.
FONSECA,
Dayz Peixoto e SILVA, José Armando Pereira da. Thomaz Perina:
pintura e poética. Campinas: Pontes, 2005.
FONSECA,
Dayz Peixoto. Grupo
Vanguarda (1958-1966).
Museu da Imagem e do Som de Campinas. Campinas: Prefeitura Municipal
de Campinas, 1981.
FONSECA,
Dayz Peixoto. Sem título, 16 mm, 20 min, 1979
Penso
que desfile de Carnaval é um tipo de museu brincante produzido
coletivamente por sujeitos que expressam criativamente memórias e sonhos
sob a forma de músicas, danças, figurinos e múltiplas artes visuais. Um
cortejo festivo, ato máximo de um largo processo de trabalho, somatória
de corpos-territórios criadores e criaturas da arte, da história e do
desejo de brilho. Como já disse o poeta russo e um nosso baiano
tropicalizou: Gente é pra brilhar, não para morrer de fome.
Por
isso, nesses tempos pandêmicos, sem desfiles, faço
um convite para uma visita ao site do artista visual e sambista
campineiro Aluízio Jeremias http://aluizio.taina.org.br/sobre-aluizio/
As
obras pictóricas de Jeremias, iluminam parte significativa dos
corpos-memórias-territórios da cultura carnavalesca da primeira metade
do século XX em Campinas, destacadamente de matriz africana. São
criações especialmente produzidas para o Projeto Semba, organizado em
2012 pela Casa de Cultura Tainã, com curadoria de TC Silva.
O
Projeto Semba foi uma ação de re-existência da cultura negra, pela
recriação pictórica de personagens, espaços e práticas culturais de
grupos sociais oprimidos pela lógica cultural capitalista que, nos anos
1950/1970, por meio da reurbanização orquestrada pelo capital
imobiliário causou a desestruturação de territórios e comunidades
tradicionais afrolatinoamericanas.
Nesse
processo, parte das memórias sonoras e visuais do samba e do carnaval
popular foram desarticuladas e uma face musical embranquecida e
europeizada foi privilegiada nas publicações oficiais da cidade.
O
trabalho artístico de Jeremias tem como matriz suas memórias de menino
encantado com a cultura do povo negro, que pulsava nos casebres e
cortiços do baixo Cambuí, antes da gentrificação. Seus quados iluminam
faces da classe trabalhadora que construiu as modernidades da cidade
capital do café, mas não teve direito de usufruí-las. Jeremias nos
ensina, com suas cenas de desfile-museu-brincante, parte da história dos
negros da cidade.
O
artista Jeremias, também um corpo-memória-território-vivo, em suas
pinturas e em muitos de seus sambas deu carnatura aos territórios, às
faces, à gestualidade e à sonoridade de uma parcela da população que não
era reconhecida como sujeito da memória e como parte do mapa cultural
da cidade, em especial nos campos das artes visuais e dos museus de
arte.
Sem
dúvida o Projeto Semba, iniciativa da Casa de Cultura Tainã, foi uma
significativa ação contra-hegemônicas no campo das artes plásticas e da
museologia social em Campinas, pois viabilizou a realização dessas
imagens e as levou para exposição no Museu de Arte Contemporânea de
Campinas na Casa de Cultura Tainã, na Casa de Cultura Fazenda Roseiras e
no Museu de Imagem e e vídeos sobre o artista no Som de Campinas. As
ações do Projeto estão documentadas em https://tainamemoria.taina.net.br/.../dom.../projeto-semba ,http://aluizio.taina.org.br/
Fica a dica, caia na folia das redes da resistência nesse Carnaval.